quarta-feira, 18 fevereiro, 2026

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Pesquisador da Uesb cria dispositivo que faz pessoas surdas sentirem a música em rituais de matriz africana

A busca por uma experiência mais imersiva para pessoas surdas em rituais religiosos motivou a criação de um dispositivo capaz de transformar sons em vibrações na pele. A ideia nasceu quando o pesquisador Igor Tairone, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Movimentos Sociais, Diversidade, Educação do Campo e da Cidade, da Universidade Estadual da Bahia (Uesb) percebeu, durante uma gira, que dez pessoas surdas dependiam totalmente do intérprete para saber que a música estava tocando.

“Estava numa gira e percebi que, entre dez surdos, só eu ouvia. Eles dependiam de um intérprete até para saber que havia música tocando. E aquilo me incomodou”, relata.

O som tem papel central em manifestações culturais, shows, cinemas e, de forma especial, nas religiões de matriz afro, nas quais o toque dos instrumentos estabelece conexão espiritual. O incômodo vivido por Igor virou ponto de partida para o desenvolvimento de um equipamento que permitisse à comunidade surda sentir a força rítmica do ritual.

A pesquisa ganhou corpo ao envolver diferentes áreas de atuação. Participam do projeto o babalorixá e professor de Libras da Uesb, Wermerson Silva; o doutorando em Educação Ricardo Alexandre Castro, orientando da professora Arlete Ramos dos Santos, do PPGEd; além dos irmãos de Igor, o pesquisador do CNPq Yan Carlos Ramos dos Santos e o engenheiro eletricista Jonatan Ramos.

O sistema funciona em duas partes: um emissor acoplado ao instrumento de percussão, como o atabaque, e um receptor com dois eletrodos fixados no braço da pessoa surda. Esses eletrodos vibram conforme a intensidade das batidas — um para sons fracos e outro para sons fortes. “Assim, conforme o atabaque é tocado, os surdos conseguem sentir na pele a variação rítmica da música. Isso cria uma ponte sensorial entre eles e o som do ritual”, explica Igor.

Os pesquisadores destacam que os resultados não são apenas técnicos, mas emocionais. “Na última vez que usamos o aparelho, um dos surdos estava com a cabeça baixa, dançando no ritmo do canto… foi emocionante ver a felicidade e a conexão dele com o ritual, sem depender de intérprete algum”, conta Igor.

A proposta vai além da acessibilidade básica e amplia o entendimento de inclusão. “A produção traz a palavra ‘inclusão’ a outro patamar, conseguimos meio que ‘adicionar’ mais um sentido no contato do surdo com o mundo. Agora ele pode sentir na pele a música, saber quando ela está tocando, quando está forte, fraca e se conectar mais energeticamente com o ambiente”, celebra.

Com o protótipo validado, a equipe trabalha para aperfeiçoar o dispositivo, melhorar a resposta a diferentes sons, testar novas peças e ampliar o desempenho. O objetivo é transformar a tecnologia em um recurso acessível para cerimônias religiosas, eventos culturais e espaços onde a música desempenha papel central na experiência coletiva.

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