segunda-feira, 16 fevereiro, 2026

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Morre Manoel Carlos aos 92 anos; autor deixa legado histórico na teledramaturgia

Morreu neste sábado (10), o escritor, produtor e diretor de televisão Manoel Carlos, aos 92 anos. A informação foi confirmada por Júlia Almeida, atriz e filha do autor. Almeida também é a responsável pela produtora Boa Palavra, empresa oficialmente responsável pelo legado de Manoel Carlos e detentora de seus direitos autorais e desenvolvedora de novos projetos.

A causa da morte não foi divulgada. O velório será fechado e restrito a amigos e familiares.

Foto: Instagram/Reprodução

Conhecido como Maneco nos bastidores e pelo público que se sentia íntimo de sua obra, Manoel Carlos convivia, nos últimos anos, com limitações provocadas pelo Parkinson. A doença foi retratada pelo próprio autor em sua última novela, “Em Família” (2014, Globo), por meio do personagem vivido por Paulo José, que tinha a mesma condição.

À época, o folhetim encerrou sua exibição com média de 30 pontos de audiência, o menor índice do horário até então. O número, considerado negativo naquele momento, hoje é visto como excelente dentro dos padrões atuais da emissora.

Os diálogos longos e bem elaborados eram uma marca registrada de suas novelas, sempre ambientadas no mesmo bairro e embaladas por trilhas sonoras pautadas pela bossa nova. O foco na crônica da classe média urbana consolidou Manoel Carlos como um dos principais autores da teledramaturgia brasileira.

Ao longo de décadas, o público aprendeu a reconhecer sua assinatura narrativa. Bastavam os primeiros acordes da chamada para saber que uma nova Helena estava prestes a chegar ao Leblon, cenário recorrente de seus folhetins e palco dos dramas de protagonistas femininas fortes e complexas.

Entre “Baila Comigo” (1981) e “Em Família”, Manoel Carlos criou nove Helenas. Regina Duarte foi quem mais interpretou o papel, em “História de Amor” (1995), “Por Amor” (1997) e “Páginas da Vida” (2006). Também deram vida às personagens Lilian Lemmertz, Maitê Proença, Vera Fischer, Christiane Torloni, Taís Araujo e Julia Lemmertz.

Embora a repetição do nome tenha sido atribuída por alguns a uma paixão juvenil, o autor afirmava que sua inspiração vinha da mítica Helena de Troia, símbolo de força e autonomia. Suas heroínas contrariavam o padrão clássico de mocinhas e, mesmo errando, conquistavam a empatia do público.

Ser escolhida para viver uma Helena era motivo de prestígio, mas os papéis de antagonistas também se tornaram cobiçados. Atrizes como Lilia Cabral, Vivianne Pasmanter, Susana Vieira e Marieta Severo marcaram época ao contracenar com essas protagonistas.

Em documentário exibido pelo Globoplay na série Tributo, Manoel Carlos explicou sua preferência por histórias centradas no universo feminino. “A mulher move o mundo”, afirmou. “As mulheres são confessionais e os homens não são. É mais fácil, pra mim, escrever sobre mulheres porque as mulheres falam as coisas, o homem não confessa que é traído”, disse.

Outro traço recorrente de suas obras era a convivência harmoniosa entre ex-cônjuges e novos parceiros, reflexo de uma visão de mundo que ele próprio defendia. A expressão “parece novela do Manoel Carlos” tornou-se sinônimo de relações maduras e civilizadas.

Mesmo idealizando cenários solares e afetivos, o autor não evitava temas duros. Em novelas como “Laços de Família” e “Mulheres Apaixonadas”, abordou a violência urbana e a tragédia das balas perdidas, inserindo a realidade social brasileira no destino de personagens centrais.

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