sexta-feira, 30 janeiro, 2026

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Centro de Referência contra trabalho escravo será implantado na Bahia

Da Redação

O Centro de Referência de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Combate ao Trabalho Escravo será implantado na Bahia e terá edital lançado nos próximos dias. O anúncio foi feito pela Secretaria de Justiça e Direitos Humanos da Bahia (SJDH) durante o Ato pela Erradicação do Trabalho Escravo, realizado na última quarta-feira (28), na Estação de Metrô da Rodoviária (Iguatemi), em Salvador.

A iniciativa, considerada inédita no Brasil, prevê a criação de um espaço com equipe multidisciplinar para oferecer suporte emocional, jurídico e institucional a pessoas resgatadas de situações análogas à escravidão, além de migrantes, refugiados, expatriados e outros grupos em situação de vulnerabilidade.

O ato integrou a programação do Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo e foi promovido pela SJDH em parceria com o Metrô Bahia. A mobilização reuniu órgãos públicos, entidades da sociedade civil e usuários do transporte público em um dos pontos de maior circulação da capital baiana.

Com o lema “Parece absurdo, mas o trabalho escravo ainda existe!”, a ação reforçou a importância da informação, da denúncia e do trabalho em rede no enfrentamento dessa grave violação de direitos humanos. A programação incluiu exposição da campanha, intervenções artísticas, samba de roda, exibição de vídeo institucional e distribuição de materiais informativos sobre canais de denúncia.

Um dos momentos mais marcantes foi a participação de pessoas que vivenciaram situações de trabalho análogo à escravidão. Os depoimentos sensibilizaram o público que circulava pela estação, trazendo humanidade e urgência ao debate.

Os depoimentos trouxeram humanidade e urgência ao debate, sensibilizando o público que circulava pela estação Foto: Cleomário Alves/SJDHBA

A atividade contou ainda com a intervenção do Grupo de Teatro da Coletiva de Mulheres Negras – Creuza Oliveira, que encenou uma situação de exploração no trabalho doméstico, provocando reflexão imediata entre os presentes.

“Desde 2017, com a intensificação da fiscalização, temos registrado um número crescente de trabalhadoras domésticas resgatadas do trabalho escravo. Só quem viveu essa realidade sabe as marcas que ela deixa. Eu comecei a trabalhar aos 8 anos e fui resgatada aos 14, aqui em Salvador, após viver privações como falta de salário, alimentação e liberdade. Histórias como a minha se repetem entre trabalhadoras domésticas, que muitas vezes chegam com a promessa de estudar e ter uma vida digna, mas acabam submetidas a condições análogas à escravidão”, afirmou Valdirene Boaventura, secretária de Assuntos Jurídicos do Sindoméstico Bahia.

Durante o evento, a coordenadora de Enfrentamento ao Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da SJDH, Hildete Emanuelle, destacou a importância de aproximar a sociedade do tema e reforçou o papel da Comissão Estadual para a Erradicação do Trabalho Escravo (Coetrae-Ba).

Segundo ela, a comissão reúne representantes de nove secretarias estaduais e mais de vinte organizações da sociedade civil, formando uma rede estratégica para o fortalecimento das políticas públicas.

“O trabalho escravo atinge principalmente pessoas em situação de vulnerabilidade, muitas vezes vítimas de falsas promessas. Esse lugar de escuta e de provocação é fundamental para que a gente avance na erradicação do trabalho escravo. Esse é um crime que atinge, sobretudo, as pessoas mais vulneráveis, que, diante da falta de oportunidades e do desespero, acabam caindo em falsas promessas e sendo submetidas a condições análogas à escravidão”, afirmou.

A campanha “Parece absurdo, mas o trabalho escravo ainda existe!” permanecerá em exposição na Estação Rodoviária (Iguatemi) até o dia 12 de fevereiro, aberta à visitação dos passageiros do metrô.

Foto: Cleomário Alves/SJDHBA

Mobilização e memória

O Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo é celebrado em 28 de janeiro, em memória de três auditores fiscais do trabalho e de um motorista assassinados em 2004, durante uma fiscalização de denúncias em Unaí, no estado de Minas Gerais. A data simboliza resistência, mobilização social e o reconhecimento da atuação dos órgãos de defesa dos direitos humanos.

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