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Eleito há 100 dias, Ricardo David faz balanço da gestão


Publicado em: 23/03/2018 7:02
Por: Da Redação


Presidente do Vitória detalhe crise financeira, erros no Ba-Vi e chance de jogar Baiano com sub-23

Nesta sexta-feira (23), Ricardo David completa 100 dias à frente do Esporte Clube Vitória. Nesta entrevista exclusiva para o CORREIO – uma das primeiras que ele concede, aliás -, o mandatário rubro-negro faz um balanço da sua gestão.

Situação financeira grave, a falta de recursos para contratar, reconhecimento dos erros no Ba-Vi, valores de vendas e de contratações de jogadores. O grave risco no Profut e, quem sabe, disputar o Baianão 2019 com o time sub-23. Tudo a seguir:

Encontrei finanças bem mais comprometidas do que imaginava. Até a negociação de David e Tréllez, foi bem complexo. Mas diria que não houve nenhuma surpresa. Creio que conduzi os problemas da maneira que deveria.

Mas houve algum dia que tirou o seu sono?

Aquele dia do Ba-Vi (18 de fevereiro) me deixou muito triste. Dentro de campo não aconteceu o que vinha acontecendo fora dele. Até nosso relacionamento bom com o Bahia de Bellintani. Temos uma agenda em comum muito grande, de negociação de direitos televisivos, problema do Baiano no início de temporada, coisas que sofremos juntos. Eu diria então que, desses 100 dias, o Ba-Vi foi o que me trouxe maior preocupação. O que aconteceu em campo não é da nossa cultura, não é o que pregamos. Naquele momento, a instituição estava sendo agredida de maneira muito forte. Não foi um jogador, não foi um treinador, foi a instituição Vitória. Eu diria que foi uma noite muito complicada, porque a gente sabia que aquele episódio poderia gerar uma imagem diferente de tudo o que a gente vem fazendo e pregando no clube: um trabalho de organização, de cooperação. O Ba-Vi mostrou um Vitória diferente.

Diria que, desses 100 dias, o Ba-Vi foi o que me trouxe maior preocupação. O que aconteceu em campo não é da nossa cultura.

Passado mais de um mês, como você vê o episódio Ba-Vi? Repensou alguma atitude?

Claro. Uma briga sempre pode ser evitada. Todo conflito daquela magnitude pode ser evitado. As duas partes erraram nisso, na minha visão. E minha preocupação foi que deram ao Vitória uma intensidade na culpa maior. É óbvio que o Vitória errou, mas a dimensão dada aos nossos erros foi muito maior. Para se ter ideia, naquele dia uma das minhas maiores preocupações foi quando vi a torcida do Bahia querendo derrubar o alambrado. Ali fiquei tenso, porque criaria um acesso para dentro do gramado, e você imagina o que poderia acontecer se a torcida invadisse o campo depois de uma confusão como aquela. E esse fato não foi sequer citado. Mas do todo, só temos lições para aprender. Do Ba-Vi, quero falar agora do que temos para frente. Como a gente pode fazer para evitar tudo aquilo. Futebol não foi feito para aquilo. Temos outros Ba-Vis pela frente e devemos um grande espetáculo.

No dia seguinte ao Ba-Vi, o Vitória emitiu uma nota dizendo que apuraria os fatos e puniria envolvidos. Até agora, parece que isso não aconteceu. Houve de fato punição?

Ainda não, porque esse é um processo em julgamento ainda, está em curso no STJD e estamos esperando o resultado. Mas nós já conversamos muito internamente, diria que lavamos a roupa suja em casa. Não podemos aplaudir uma ação daquela. Colocamos o que nós achamos, discutimos com os atletas e com a comissão técnica. Agora, punição mesmo nós estamos aguardando a conclusão do processo.

Então a punição vai depender do julgamento, é isso?

Não é que vai depender, a gente só não quer que a punição do Vitória interfira no julgamento. Não quero que, se ocorrer uma punição interna, eles falem “olha, até internamente o Vitória já puniu”. Mas a gente já sabe o que aconteceu naquele dia e vamos dar a tratativa internamente.

A gente já sabe exatamente o que aconteceu (no Ba-Vi) e vamos dar a tratativa internamente.

Você citou que tinha uma boa relação com o Bahia. Isso mudou depois do Ba-Vi?

Sem dúvida. Mas vai voltar ao normal porque assim acreditamos que tem que ser. Temos um processo de eleição na FBF, na CBF também, uma discussão de cotas televisivas pela frente, uma série de assuntos em que precisamos estar alinhados, para fortalecer os dois. Óbvio que houve um estremecimento, já que as partes falaram algumas coisas no calor, mas eu diria que isso vai voltar ao normal, certamente.

O que achou da postura do Bahia no tribunal, ao entrar como interessado no processo contra o Vitória e produzindo provas?

Usaria uma palavra muito comum juridicamente: foi passional. Se posicionou emocionalmente, faltou um pouco mais de razão. Mas é cada um defendendo seus interesses, a gente entende.

Na eleição, havia um temor de que o Vitória estivesse ‘falido’. Como encontrou a situação financeira do clube?

No dia 14 de dezembro, quando assumi, dei prioridade a três ações. A primeira, levantar as condições financeiras do Vitória. Sem saber de quanto eu dispunha, eu não poderia contratar. A segunda, renovar com os atletas que considerávamos importantes. A terceira, buscar reforços. O que aconteceu? Quando mergulhamos na situação financeira, a gente se deparou com um quadro mais preocupante do que imaginava. Estávamos consumindo toda a conta garantida que a gente tem direito, uma espécie de cheque especial. Os recebimentos previstos já estavam todos comprometidos com folha salarial e outras obrigações. Tínhamos pagamentos importantes com o elenco em atraso, como direito de imagem e acordos de intermediação de empresários. Premiações também. Então obviamente isso interferiu no desenvolvimento das outras etapas. Por exemplo, naquele início de gestão, se a gente ia negociar com um atleta que cobrava luvas, nós não tínhamos como cumprir. Chegou ao ponto de, no dia 5 ou 6 de janeiro, a gente não ter dinheiro para comprar copo para água.

Quando mergulhamos na situação financeira, a gente se deparou com um quadro mais preocupante do que imaginava

E o que fez o clube se manter nesse período?

A venda de David. Fizemos uma negociação importante, praticamente pelo valor da multa. Mas aí nos deparamos com o problema de lesão de David. O serviço médico do Cruzeiro não quis dar o ‘ok’ para que o clube pagasse. Aquilo foi um problema grande porque eu estava precisando daquele recurso para fazer o clube rodar. Nesse ínterim, começou a temporada. E se você lembrar, naquele jogo contra o Globo, o primeiro do ano, o Vitória tinha apenas cinco jogadores de linha no banco. Quando o recurso de David entrou, a gente partiu para pagar logo as dívidas que tínhamos com o elenco. Imagine se o dinheiro, em vez de pagar as dívidas com aqueles atletas, fosse usado para contratar novos jogadores? Como ficaria a credibilidade do Vitória? Pagamos nossas dívidas e só depois passamos contratar. Naquele mês de janeiro e início de fevereiro, faltaram recursos para a gente negociar como gostaria.

Com a temporada já iniciada, houve uma mudança drástica no elenco. Saíram Tréllez, Kieza e Wallace e chegaram vários reforços de uma vez só. Por quê?

Foi porque aí veio a negociação de Tréllez. Ficamos com R$ 6 milhões pagos à vista e colocamos uma condicional. Se o São Paulo vende-lo no período de dois anos, ficamos com 30%. Se não, eles vão nos pagar mais R$ 2 milhões. Com o recurso de Tréllez, a gente pôde dar uma respirada boa e sair ao mercado para qualificar o elenco. Foi nesse momento que trouxemos Rodrigo Andrade, que foi uma compra nossa, na filosofia de trazer ativos jovens, atletas que podem ser negociados depois. Trouxemos Guilherme, que veio por empréstimo, mas nos interessa muito adquirir. É jovem, habilidoso.

Quando você diz que assumiu o clube no ‘cheque especial’, isso significa que o Vitória não guardou nenhuma reserva dos anos anteriores?

Nenhuma. Zero. Chegamos aqui com o Vitória utilizando R$ 700 mil da conta garantida. E olha que esse ‘cheque especial’ também estava comprometido, viu? Porque o que nos dava esse crédito era o recurso do Sou Mais Vitória, que no ano passado foi transferido para a empresa que presta o serviço de bilheteria. Foi um recurso tirado do Vitória e que era oferecido como garantia à instituição financeira para obter o crédito. Nem esse instrumento eu tinha para tomar mais dinheiro. E tive que tomar dinheiro emprestado, não teve jeito.

O Vitória tem controle para onde foi todo o dinheiro recebido da TV Globo em 2016, cerca de R$ 40 milhões?

Claro, em detalhes. Nós estamos em fase final de uma auditoria interna. Algumas coisas nos chamaram atenção. Por exemplo, tivemos no ano passado valores expressivos gastos em rescisão de contrato. Ou seja, o Vitória contratou atletas, no meio do ano viu que não serviam para o elenco, e rescindiu com eles. Mas aí teve que pagar tudo o que estava por vir. É uma irresponsabilidade muito grande. E aconteceu em todas as áreas, não só com jogadores. Membros da comissão técnica e diretores, por exemplo. Tem valores consideráveis com intermediação de agentes, também. Como foram atletas de salários altos, então esses acordos de intermediação tiveram valores importantes, também.

Tivemos no ano passado valores expressivos gastos em rescisão de contrato. É uma irresponsabilidade muito grande.

Quando deve ficar pronta essa auditoria?

Devemos concluir até o final de março. Eu diria que já está 90% pronta, mas já tomei conhecimento de quase tudo. Em abril vamos apresentar ao Conselho Fiscal, que é o órgão competente, segundo o estatuto. Por isso, não posso entrar em detalhes agora.

Você mencionou a venda de David. Segundo nossa apuração, o clube recebeu R$ 9,8 milhões. Foi sso?

Esse foi o valor da parte que o Vitória tinha, de 70%. Só que nós vendemos 70% disso. Então na verdade ficaram no clube R$ 6,8 milhões. Entenda: a multa de David era de R$ 14 milhões. Só que o Vitória tinha 70% dela, ou R$ 9,8 milhões. Disso, vendemos 70%, ou R$ 6,8 milhões. Recebemos em duas parcelas, já quitadas. No final de tudo, o Vitória ficou com 23% dos direitos econômicos. Fizemos questão disso porque é um jogador que tem mercado internacional.

David revelou descumprimento importante com o Profut (Foto: Marina Silva / CORREIO)

Você disse que a única aquisição da sua gestão até agora foi Rodrigo Andrade. Por quanto foi?

R$ 600 mil. Pagamos isso por 50% de Rodrigo Andrade. Temos a segurança de que foi um grande investimento num jovem de muito potencial, veloz, de futebol moderno. Assim que fomos eleitos, procuramos o Paysandu, só não avançamos porque a gente não tinha dinheiro. Quando entrou o recurso de David, a gente concretizou.

Sua gestão fez 11 contratações. Quantas ainda pretende fazer para a Série A?

No curto prazo, mais cinco. Precisamos reforçar principalmente o sistema defensivo e estamos buscando lateral-direito e zagueiros. Queremos meia e atacante também. Volante a gente está muito bem servido. Mas temos necessidade de qualificar mais, porque temos pela frente jornadas longas, como a Série A.

No curto prazo, mais cinco (contratações). Precisamos reforçar principalmente o sistema defensivo.

Qual a sua avaliação do elenco que montou? A base mantida de 2017 foi alvo de críticas.

Tem muita gente que critica, mas eu diria que é um ponto positivo. Futebol é esporte coletivo, quanto mais entrosados os jogadores estiverem, maior a probabilidade de sucesso. O fato de começarmos o ano com uma ‘coluna’ do ano passado – Fernando Miguel, Kanu, Uillian Correia, Yago, Neilton, André Lima – é importante, facilita para o treinador passar o modo de jogar. Também fizemos a ascensão de vários jogadores da base, e quando você povoa o elenco com muita gente experiente, você tira o espaço dos novos. Veja o quanto Nickson está preenchendo a vaga. Vou dizer para você: eu tive a oferta de trazer Osvaldo para essa posição. Eu não quis, exatamente para não bloquear o espaço de Nickson. E vejo que foi uma decisão acertada.

Acredita que esse elenco está pronto para os desafios deste ano?

Estou satisfeito com o que fizemos até agora. É o melhor que o Vitória poderia ter produzido? Não. A gente tem sempre mais para fazer. Mas tem que olhar as condições em que isso aconteceu. Estou completando 100 dias de gestão, mas nos 40 primeiros passei sobrevivendo. Não tinha dinheiro para nada. Como é que pode ser agressivo e assertivo no mercado se você não tem o principal fator que conduz isso, que é o capital?

Tinham atletas aqui com três meses de atraso do direito de imagem. Isso faz parte do salário.

Você disse que encontrou muitas dívidas com o elenco. De que natureza?

A que mais me preocupou foi o direito de imagem, porque faz parte do salário do atleta. Tinham atletas aqui com três meses de atraso. Com outros, os acordos de intermediação dos seus agentes não foram pagos. E é um acordo assinado, o clube tem que honrar. Com a folha de funcionários, não havia dívida, ainda bem.

Como integrante do Profut, o Vitória tem que manter seu déficit anual em 10% da receita. Em 2017, isso não aconteceu, e o clube pode sofrer sanções, até perder o parcelamento do programa. Como está agora?

Uma das primeiras preocupações nossas quando assumimos foi olhar o balancete de novembro. Ali, o déficit já tinha passado quase 40% da receita do clube. Não havia mais nada a fazer, porque eu só tinha 15 dias para fechar o ano. De imediato, marcamos uma reunião com a Apfut (Autoridade Pública de Governança do Futebol). Lá, recebemos a informação de que o Vitória já havia sido notificado duas vezes para que se adequasse e não houve resposta. Firmamos com eles o compromisso de fornecer a eles todos os dados necessários para mostrar que o Vitória vai cumprir neste ano com o que está preconizado. Diria ao torcedor agora que não temos nenhuma preocupação de perder o programa de imediato, mas não haverá mais tolerância deles. Precisamos manter o compromisso.

Por tudo o que disse em relação ao início do ano, você diria que foi forçado a vender David e Tréllez?

Tréllez, não. David, sim. Em dado momento eu me senti refém, porque tinha que fazer o papel de defender os interesses do Vitória, mas concluir a negociação. Quando você endurece demais a negociação, você corre o risco dela não acontecer. Mas eu não podia, dependia daquele dinheiro. Sabe o primeiro jogo do ano aqui no Barradão, com a Juazeirense? Nós não tínhamos dinheiro para fazer o jogo. Imagine então você conduzir uma negociação sabendo que do outro lado da mesa tem o recurso que você mais precisa.

Em dado momento me senti refém, porque tinha que concluir a negociação de David. Dependia daquele dinheiro.

O Vitória também vendeu Yan. Por quanto?

O Palmeiras nos comunicou que iria exercer o direito de compra que havia sido acertado, de R$ 1 milhão. Na época, estávamos sem lateral-direito e tínhamos o interesse em trazer Lucas. O Palmeiras paga parte do salário de Lucas aqui e o valor é abatido da compra de Yan.

O orçamento do Vitória aprovado para 2018 é de arrecadar R$ 102 milhões. Quanto disso vem da venda de atletas? Qual a origem dos demais valores?

Serão R$ 22 milhões da venda de jogadores. Nesse momento, faltam R$ 5 milhões para a meta. Acredito que nós vamos alcançar isso. Inclusive, tenho expectativa de fazer valores maiores que esse. Fora isso, R$ 45 milhões vêm de direitos televisivos, R$ 10 milhões com patrocínios. Aí ainda tem renda do Sou Mais Vitória, bilheterias, licenciamentos…

Desses R$ 102 milhões de receita, quanto o Vitória vai gastar?

Quase a mesma coisa, a previsão de superávit é de mais ou menos R$ 250 mil. Agora, uma coisa é o orçamento anual, com todas as receitas e todas as despesas. Mas nós teremos despesas a fazer em 2018 que são dívidas de 2017. Então a expectativa é de que gastemos mais do que isso porque estamos pagando pelo preço do passado.

Além da folha salarial dos jogadores, que outros cortes foram feitos nos gastos do Vitória?

A folha caiu quase 40%. Hoje, estamos em torno de R$ 2,2 milhões. Peguei em R$ 3,2 milhões, já sem vários jogadores que haviam defendido o clube durante o ano. Reduzimos também na área pessoal. Tinha gente que trabalhava em meio turno. Todos foram trocados e muitos substituídos por funcionários de regime integral ganhando menos.

Eu diria que há uma possibilidade grande de que, no ano que vem, nós disputemos o Baiano com o sub-23.

Como você avalia o Campeonato Baiano? O Vitória se beneficia com o torneio?

Esse é um assunto muito sério que teremos que discutir com a FBF e com o Bahia. Apesar do número de jogos do Baiano ter sido reduzido, ele junta com Copa do Nordeste e Copa do Brasil no calendário, e chegamos a jogar dez partidas em 30 dias neste ano. Eu diria que há uma possibilidade grande de que, no ano que vem, nós disputemos o Baiano com o sub-23 para que possamos fazer uma pré-temporada mais longa. Temos no mesmo período a Copa do Brasil, que se tornou um torneio altamente rentável. Para se ter ideia, a próxima fase dela (quarta fase, contra o Internacional) vale R$ 2,4 milhões. Isso dá quase 50% do nosso patrocinador máster (a Caixa paga R$ 6 milhões/ano). Eu preciso ter o time bem para essas competições mais rentáveis.

Em relação à Copa do Nordeste, existe a possibilidade do Vitória abrir mão dela, assim como fez o Sport?

Cada clube sabe o que é bom para si, mas com a realidade do Vitória eu não sairia. Virou um produto interessante e a expectativa é que ela se fortaleça ainda mais nos próximos anos. Ela pode ter Série A e Série B, por exemplo.

Em relação à eleição à presidência da CBF, o Vitória vai votar em Rogério Caboclo, candidato da atual gestão de Marco Polo Del Nero?

Pelo que tomamos conhecimento, não haverá outro candidato. Estivemos lá, conversamos com ele e colocamos as nossas expectativas. Cobramos um olhar mais cuidadoso com o futebol do Nordeste. É preciso dar espaço a outras praças. Eu diria que a nossa posição é de apoio a ele, mas um apoio colocando as nossas expectativas.

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