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Explosivos em lancha têm poder de destruir mais de 140 caixas eletrônicos


Publicado em: 01/05/2018 7:04
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Marinheiro da embarcação sequestrada foi abandonado no mar por bandidos

No mar da Ribeira, na Cidade Baixa, passeios de lancha são frequentes. Quem mora por ali já se acostumou a ver turistas e nativos cruzando a Baía de Todos os Santos a bordo de embarcações. Mas os acontecimentos desta segunda-feira (30) foram inéditos: com direito a troca de tiros no mar, helicóptero pousando na areia e um marinheiro abandonado na água, uma lancha com 71,5 kg de explosivos foi encontrada pela Polícia Federal (PF).

De acordo com a PF, os artefatos seriam usados pela quadrilha para roubos a banco – só este ano, já foram registrados 25 ataques a agências e a caixas eletrônicas no estado, de acordo com o Sindicato dos Bancários. Só para dar uma ideia, é tanto explosivo que, especialistas ouvidos pelo CORREIO explicaram que daria para atingir mais de 140 caixas eletrônicos.

Segundo a PF, foi a primeira vez que um barco foi utilizado na Bahia para “auxiliar na prática de crimes de assalto a caixas eletrônicos”. O proprietário da lancha Julia II não foi localizado, nem informado pela Marinha, para não atrapalhar as investigações da PF.

No entanto, a Capitania dos Portos confirmou que qualquer embarcação precisa, obrigatoriamente, estar registrada na Marinha. Na busca no site da Diretoria de Portos e Costas, mesmo com o nome e o número da embarcação, o CORREIO não localizou a lancha.

Mas para quem convive com esse tipo de violência diariamente, não há uma novidade. O presidente do Sindicato dos Bancários, Augusto Vasconcelos, contou que já tinha notícias de explosivos sendo escoados pelo mar. Ele acredita que a extensão e o difícil controle facilitam.

“Já tinha ouvido falar disso no mar, mas não tinha ouvido falar de quadrilha sendo desbaratada assim, como aconteceu. O Brasil é um país muito grande e nosso controle de fronteiras ainda é muito débil. A gente tem que reconhecer que há um aperfeiçoamento do trabalho das polícias, com mais explosivos e armas sendo apreendidos, mas o índice de ocorrências ainda é muito alto”.

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

500 gramas
Já o comandante da Companhia Antibombas do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Érico Carvalho, contou à reportagem que nunca se deparou com informações de uma quadrilha que age também pelo mar.

Embora a companhia não tenha participado da operação na Ribeira, é ela a responsável por atuar na maioria dos casos que envolvem explosivos no estado. “Já fomos chamados para situações de explosivo com pesca predatória (no mar), mas nenhuma assim”, explica.

Ele ajudou, contudo, a dar uma noção do tamanho do estrago que os artefatos apreendidos poderiam causar. “É relativo ao tipo de explosivo e à forma como estava condicionado, mas se tem 500g de explosivo contra uma instituição financeira, já dá para fazer algo contra um caixa eletrônica”, diz. Ou seja, com 71,5 quilos, daria para atingir até 143 equipamentos.

O valor é difícil estimar, no entanto, o capitão explica que são explosivos relativamente baratos – mineradoras e pedreiras compram toneladas, por exemplo. O Exército, responsável pelo controle de explosivos legais no país, foi procurado mas não emitiu posicionamento até o fechamento da reportagem.

A própria PF ressaltou o caráter inédito da apreensão. Segundo a corporação, o Núcleo Especial de Polícia Marítima (Nepom) apreendeu mais de dois mil quilos de cocaína no Porto de Salvador no ano passado, após um trabalho em conjunto com a Receita Federal.

“Ressaltamos também que o Nepom realiza apoio a operações em que seja necessário o uso de embarcações marítimas além de realizar periodicamente o serviço de patrulhamento da nossa costa”, informam. A superintendência da PF não quis, porém, indicar um representante da corporação para dar entrevista.

Depoimento
O marinheiro da embarcação foi ouvido na sede da PF, ainda durante a tarde desta segunda-feira. Ao CORREIO, ele contou que dois homens o abordaram na praça Cayru, no Comércio, e contrataram a embarcação para fazer uma viagem até a praia da Ponta de Areia, na Ilha de Itaparica, na tarde de domingo (29).

A Polícia Federal não divulga o conteúdo dos depoimentos, já que são exclusivos dos inquéritos. Além do marinheiro, as duas pessoas que foram presas pela PM foram ouvidas nesta segunda-feira (30) na Superintendência da Polícia Federal. O departamento de comunicação não soube dizer se mais alguém seria ouvido no caso da lancha.

Trabalho em conjunto
Na avaliação do presidente do Sindicato dos Bancários, Augusto Vasconcelos, o tráfico de explosivos tem sido realizado por quadrilhas cada vez mais especializadas – o que revela, inclusive, organização do crime. Por isso, a entidade tem realizado reuniões com os órgãos de segurança e com os diferentes comandos das polícias, com o objetivo de cobrar mais investimento do governo e dos bancos.

Na semana passada, inclusive, representantes do sindicato estiveram com o secretário estadual da Segurança Pública, Maurício Barbosa. “Temos feito reuniões com todos os órgãos e é bom mencionar que há uma necessidade de conjugação de esforços de todas as polícias – federal, rodoviária, civil, militar – também com os bancos, que podem ajudar na elucidação dos crimes”, diz.

A proposta da entidade é que todas as agências bancárias do estado tenham câmeras de monitoramento interligadas em tempo real com o centro de monitoramento da SSP. As câmeras, que já são obrigatórias na parte interna, deveriam ser instaladas também na fachada e no entorno das unidades.
Vasconcelos acredita que isso ajudaria na elucidação dos crimes. “A secretaria acha correto, mas o secretário tem dito que já procurou diversas vezes os bancos, mas que algumas instituições têm criado embaraços para fornecer esse tipo de informação”.

Através da assessoria, a SSP confirmou a reunião, que aconteceu no Centro de Operações e Inteligência, no Centro Administrativo da Bahia (CAB). Na semana passada, em nota publicada em seu site, o órgão informou que o encontro tratou dessas propostas para a elaboração de um projeto de lei estadual.

Na ocasião, o secretário Maurício Barbosa disse, segundo a assessoria, que é preciso, antes de qualquer coisa, de um parecer da Procuradoria Geral do Estado sobre a constitucionalidade do PL. “Todos os tópicos conversados são pleitos antigos e já expostos para os bancos. A criação de uma legislação estadual voltada para esta área seria fundamental para o trabalho da polícia”, afirmou .

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