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Futuro do Forte São Marcelo segue indefinido


Publicado em: 05/03/2018 10:56
Por: Da Redação


Daquele miolo de concreto no meio do mar, Salvador exibe-se esplendoroso. Num canto espiam-se os arcos da Ladeira da Conceição da Praia, de frente está o Elevador Lacerda pegado com o Mercado Modelo, na outra ponta, os prédios empresariais do Comércio, a luz banhando tudo. Fica verdadeiramente impossível não cair de amor. Mas, há cerca de sete anos, a vista da cidade da baía desde ali, do Forte São Marcelo, passou a morar só na memória.

Fechado para visitação em 2011, o lugar foi reformado com a promessa de que logo estaria reaberto. Apenas em novembro de 2016 o equipamento foi entregue, com certo alarde, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), após uma obra de restauro que durou dois anos e custou R$ 7,5 milhões. Na época, o órgão federal e a prefeitura anunciaram que “em breve” decidiriam o “uso cultural do bem”, mas até agora não há qualquer definição.
Repare que o Memorial do Frontispício, que também passou por obra de restauro a cargo do Iphan, por meio do PAC Cidades Históricas, foi entregue depois do Forte São Marcelo e já está aberto à população, após ser transformado em tempo-relâmpago na Casa do Carnaval. No seu gabinete na Graça, o secretário municipal de Cultura e Turismo, Cláudio Tinoco, recapitula os 16 meses de impasse. Conta que a prefeitura manifestou ao Iphan, responsável pela guarda do forte do mar, o interesse em implantar no local um equipamento cultural e turístico, ancorado nas experiências dos espaços em homenagem a Carybé e Pierre Verger abrigados nos fortes São Diogo e Santa Maria, na Barra.
Nas reuniões, apresentou três vertentes de operação: 1. a implantação de um museu que contasse a história da Baía de Todos-os-Santos e a composição de Salvador como uma cidade-fortaleza; 2. criação de um espaço gastronômico e de eventos; 3. a concessão para a iniciativa privada, para que uma empresa apresentasse o conteúdo e viabilizasse economicamente a manutenção do local.
Por conta dos custos de operação, que ainda incluiriam o translado dos visitantes da costa para o forte, Tinoco diz que acabaram optando pela terceira opção. Em setembro passado, a prefeitura procurou uma empresa, a Socicam – que gere o Terminal Turístico Náutico da Bahia (TTNB) e o Terminal Marítimo de Vera Cruz, além de integrar o consórcio Nova Lapa –, para sondar se teria interesse pelo “negócio”, por operar nas proximidades do forte e já dispor de embarcações, píer e estruturas de manutenção. “Obviamente, se indicassem a viabilidade do projeto, teriam que passar por todos os ritos de uma concessão”, Tinoco apressou-se a esclarecer
.
Após um estudo, a empresa manifestou, em janeiro deste ano, a “inviabilidade econômica” da operação. Procurada pela Muito, declarou em nota que “novas possibilidades de exploração ainda podem ser avaliadas”.
De modo que, para o bem ou para o mal, voltou-se à estaca zero do processo. “Alguém vai ter que botar dinheiro para reabrir o forte, preenchê-lo com conteúdo, operá-lo e mantê-lo. E essa responsabilidade hoje é do governo federal, é do Iphan”, diz Tinoco, como quem tira o time de campo. Lembrou que a prefeitura já investe cerca de R$ 5 milhões por ano na operação e manutenção dos espaços culturais nos fortes da Barra, da Casa do Rio Vermelho e da Casa do Carnaval, e tem projetos em andamento para implantação do Museu da História da Cidade (o novo arquivo público municipal) e do Museu da Música Brasileira, com entrega prevista para março de 2020.
Para Tinoco, um caminho para o São Marcelo passa, necessariamente, por uma gestão tripartite. “Se o Iphan garantir uma verba anual de manutenção e houver de fato essa cessão de uso, pretendo construir uma condição para que o município destine recursos ao local. E aí definiríamos o conteúdo e faríamos uma licitação para escolher uma empresa privada para gestão, como já acontece na Barra”.
O superintendente do Iphan na Bahia, Bruno Tavares, não atendeu ao pedido de entrevista da Muito. Por meio da assessoria de comunicação, limitou-se a dizer que “não há novidades” sobre o caso e sugeriu que a reportagem entrasse em contato com a prefeitura. O órgão também não autorizou a visita à fortificação para produção de imagens do local.
Curiosamente, o Iphan está promovendo a candidatura de 19 fortificações brasileiras a Patrimônio Mundial. Salvador é a cidade que abriga o maior número delas, cinco no total, entre as quais está o Forte São Marcelo.
Carreira turística
Quase quatrocentão, o forte, edificado em 1623 com a nobre missão de resguardar Salvador – e de onde a cidade foi por vezes bombardeada –, já foi prisão de revoltosos e teve uma breve carreira turística e cultural. Entre 2006 e 2011, o lugar esteve aberto a visitação, por iniciativa da Associação Brasileira dos Amigos das Fortificações Militares e Sítios Históricos (Abraf). A noite de inauguração teve festa com presença de personalidades, como Maria Bethânia.
No local passaram a funcionar os museus Memórias do Mar, Memórias da Cidade e Memórias do Forte, além de restaurante e loja de lembrancinhas. O visitante pagava R$ 10 pela entrada e translado num barquinho que não levava mais de cinco minutos para chegar. A prefeitura, o governo do estado e empresas privadas, como a LG e Lojas Insinuante, apoiaram o projeto, que promoveu atividades educativas, como aulas vivas. Dos cerca de 400 mil visitantes que o forte recebeu neste período, um terço foi estudantes.
Em 2011, o contrato de cessão entre a Abraf e o Iphan expirou e não foi renovado, por discordâncias entre as contas apresentadas pela organização social e pela necessidade da obra de restauro, já que havia um “encapsulamento da coroa” onde o forte está assentado, como declarou à época Carlos Amorim, então superintendente do Iphan-BA. Apesar da determinação judicial para desocupar o forte, tombado desde 1938, a associação recusou-se a deixar o monumento, tal qual os holandeses que o ocuparam no período colonial. A confusão foi parar nas páginas dos jornais, mas a resistência não durou muito tempo.
A ordem de serviço para as obras de restauração só seria assinada três anos depois, em 2014, com a garantia de Amorim de que o Iphan voltaria logo a “trabalhar com a imagem do forte, uma joia da arquitetura colonial portuguesa”. E aí chegamos ao ponto da história que você já conhece. A joia ficou alguns milhões mais cara, mas até agora só pode ser vista de longe.

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