O Ministério Público da Bahia (MPBA) denunciou Weber Sena de Oliveira, conhecido como “Paulista” por tráfico de aves silvestres. Ele, cuja prisão em flagrante em sete de janeiro deste ano, em uma blitz na BR-101, nas proximidades de Itabuna, sul da Bahia, pôs fim a uma história de perseguição que perdurou por mais de 20 anos.

A prisão em flagrante, por transporte ilegal de 135 pássaros, colocou o maior traficante de aves silvestres do país no centro das investigações do Ministério Público da Bahia, realizadas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) e Promotorias de Justiça Regional Ambiental de Ilhéus e Itabuna, com apoio do Ministério Público de Alagoas, por meio do Núcleo de Defesa do Meio Ambiente (Nudem), e do Centro Operacional da Defesa do Meio Ambiente (Ceama) baiano.
“Paulista” foi preso preventivamente em setembro, em Mascote, pela Operação Fauna Protegida e agora integra a lista de 24 denunciados pelo MPBA por tráfico de animais silvestres, lavagem de dinheiro, receptação qualificada e maus-tratos. Ao todo, cinco denúncias foram apresentadas contra a organização criminosa, quatro delas entre 29 de outubro e 10 de novembro, período que coincidiu com a abertura da COP30, em Belém (PA).
Entre os acusados estão fornecedores, receptadores, transportadores e a operadora financeira do grupo. O MP aponta que a quadrilha era composta por 14 fornecedores — dez deles atuando na Bahia — além de cinco receptadores, três transportadores e uma responsável pelo fluxo financeiro.
Movimentação milionária
Segundo o Gaeco, apenas entre fevereiro e agosto de 2023 circularam quase R$ 500 mil nas contas de Ivonice Silva e Silva, companheira de “Paulista”. Ela é identificada como responsável por receber pagamentos pelas “encomendas”, que por vezes ultrapassavam mil aves, e repassar valores a fornecedores na Bahia e em Minas Gerais. As investigações também apontam forte movimentação bancária partindo de terminais em Magé (RJ), cidade onde vive Valter Nélio, o “Juninho de Magé”, igualmente denunciado.
O esquema envolvia captura de aves como estevão, canário, papa-capim, trinca-ferro e azulão, muitas delas capturadas com redes de 20 metros capazes de apreender até 500 pássaros em um dia. Há registros de vendas que chegaram a R$ 80 mil. As aves eram mantidas em condições precárias, com alimentação insuficiente e cativeiros improvisados, à espera do envio para o Rio de Janeiro e Salvador. A promotora Aline Salvador destaca que, segundo a Renctas, “90% dos bichos capturados não sobrevivem durante o transporte”.
A rota também foi identificada por estudo do projeto Libertas, da Abrampa, que mapeou 31 manchas de calor relacionadas ao tráfico na Bahia e no nordeste de Minas Gerais.
Operação Fauna Protegida
A segunda etapa da operação foi deflagrada em 29 de outubro. Houve ações simultâneas em Monte Santo e Valente (BA), Almenara e Divisópolis (MG), além de Magé, Guapimirim, Rio das Ostras, Cabo Frio e Casimiro de Abreu (RJ). Foram cumpridos dois mandados de prisão preventiva, 17 de busca e apreensão e registradas três prisões em flagrante.
“As denúncias decorrem de um trabalho rigoroso de investigação, com alcance nacional, por meio da colaboração de vários órgãos. É uma resposta contundente do estado para promover a proteção da nossa fauna”, afirmou a promotora Aline Salvador. Para o coordenador do Ceama, Augusto César Matos, os resultados reforçam a importância da articulação interinstitucional na repressão ao tráfico de animais silvestres.
As ações integram a operação nacional Libertas, voltada ao combate aos crimes contra a fauna, especialmente aves dos biomas Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica, muitas delas ameaçadas de extinção e destinadas a feiras clandestinas.
Denunciados e presos
BAHIA (14):
Weber Sena Oliveira, “Paulista”, líder da Orcrim, preso preventivamente e denunciado desde setembro
Ivonice Silva e Silva, companheira de Paulista, operadora financeira
Uallace Batista Santos, fornecedor
Messias Bispo dos Santos, fornecedor
Gilmar José dos Santos, fornecedor
Ademar de Jesus Viana, fornecedor
Josevaldo Moreira Almeida, receptador
Donizete Gonçalves Dias, fornecedor
Judcael Ribeiro da Silva, “Cael”, fornecedor
Jocimar Ferreira da Silva, fornecedor
Valda Ribeiro da Silva, fornecedora
Allef de Oliveira Araújo, fornecedor
Carlito Araújo de Oliveira, fornecedor,
Lázaro Roberto Leal, “Lazinho”, receptador
MINAS GERAIS (3)
Alberto Figueiredo Oliviera, fornecedor, preso preventivamente na segunda fase
Íris Santos Batista, fornecedor
Carlos Alberto Rodrigo Pereira, “Tupet”, fornecedor
RIO DE JANEIRO (6)
Valter Nélio Eymael Júnior, “Juninho de Magé”, receptador, já preso em operação anterior, teve mandados de prisão e busca cumpridos contra ele no presídio de Magé na segunda fase
José Luminato Cortes, receptador, alvo de mandado de busca
Demisson Ferreira Passos, “Dedê”, receptador, alvo de mandado de busca
Gerson Freira Braga, “Loquinha”, fornecedor, preso preventivamente na segunda fase
José Roberto Cardoso da Silveira, “Zezé”, transportador, alvo de mandado de prisão preventiva na segunda fase, não foi localizado e se encontra foragido
Fábio Alexandre Amarante Bertacini, “Fabinho”, transportador
ESPÍRITO SANTO (1)
Vagner Sassemburg, transportador
