domingo, 29 março, 2026

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No país do WhatsApp, fake news é uma preocupação antes das eleições

Fim do jogo do Brasil contra a Bélgica. Apito do juiz no gramado e, no Whatsapp, a notificação de uma nova mensagem, que começava assim: “O ESCÂNDALO QUE TODO MUNDO SUSPEITAVA!”. Escrita em letras maiúsculas, ela atribuia ao jogador Fernandinho a seguinte afirmação: “Se as pessoas soubessem o que aconteceu na Copa do Mundo ficariam enojadas”.

Isso porque, ainda segundo a mensagem, a Copa do Mundo da Rússia foi vendida pela Seleção brasileira à Fifa. “O que está exposto abaixo é a notícia em primeira mão que está sendo investigada por rádios e jornais de todo o Brasil e alguns estrangeiros”, continuava a mensagem, antes de detalhar os valores recebidos por jogadores e pelos integrantes da comissão.

O texto é quase o mesmo distribuído pela web quando o Brasil perdeu a final em 1998, ou seja, quando o WhatsApp estava longe de existir, mas a lista de e-mails já cumpria essa função.

Afinal, de lá para cá surgiram as chamadas fake news, houve uma radicalização na polarização política e o Brasil de transformou no país do WhatsApp – e em um dos maiores consumidores de notícias via redes sociais digitais em todo o mundo.

Bomba relógio
Com a proximidade das eleições, em outubro, mensagens como a que abre essa reportagem passarão a ser ainda mais frequentes nas redes sociais, bem como a discussão sobre as chamadas fake news.

Apesar de beberem na mesma fonte, boatos não se confundem com fake news, que  funcionam em uma lógica específica e são um fenômeno muito recente, cujos contornos foram se delineando após a disputa presidencial americana de 2016, com a vitória de Donald Trump.

Para a pesquisadora Tatiana Maria Dourado, doutoranda em comunicação e política pela Ufba e que estuda fake news, o modelo de “corrente” com o objetivo de criar clima de alarde e gerar engano é recorrente no WhatsApp, onde circula em forma de texto, mas também de áudio e de vídeo.

Para ela, isso não é o mesmo que fake news, fenômeno que tem sido entendido como uma “notícia fabricada, um conteúdo sem base factual, mas que recebe a estrutura de notícia para parecer credível”, diz.

Exemplo recente de uma fake news foi a informação sobre a vereadora Marielle Franco, assassinada a tiros no Rio de Janeiro, ter sido casada com o traficante Marcinho VP. Para parecer real, uma foto circulou junto com o boato, que chegou a ser compartilhado por pessoas públicas como o deputado federal Alberto Braga e pela desembargadora Marília Castro Neves.

Foto circulou junto a boato de que Marielle Franco foi casada com traficante Marcinho VP  e engravidou aos 16 anos. Tudo mentira (Foto: Reprodução)

Pablo Ortellado, professor da USP e coordenador adjunto do Monitor do Debate Político no Meio Digital, destaca que há ainda muita discordância sobre as fake news, termo que surgiu na cobertura jornalística para se referir a alguns sites maliciosos que difundiam boatos na forma de notícia durante a eleição presidencial dos EUA. Ele lembra, que uma vez eleito, Trump também passou a usar o termo para desqualificar e descredenciar qualquer tipo de cobertura adversária. “Se o termo serve para essas duas coisas, ele quer dizer muito pouca coisa. Por isso tem gente que tem evitado o uso”, pondera.
Apesar disso, ele acredita que o surgimento do termo é prova/resultado de um novo fenômeno comunicacional e político, relacionado tanto à radicalização da polarização política, quanto aos novos hábitos de consumo de notícias e de produção de informação.

Áreas cinzentas
O que aparece nas timelines (e o que informa as pessoas) não é exatamente governado por credibilidade ou reputação – mas, sim, por algoritmos desenhados para maximizar o período de atenção. Afinal, o que as redes sociais querem também é audiência. Ao lado dos sites de busca, as redes sociais estão entre os sites mais rentáveis da internet. E os produtores de fake news sabem disso!

“É claro que eu ganhei dinheiro publicando notícias falsas, mas o Google ganhou mais”, disse um jovem macedônio de 19 anos em entrevista à GloboNews para o documentário “Fake News – Baseado em Fatos Reais”. Em seguida, acrescentou: “a internet é um lugar livre. A mentira sempre
existiu. São os leitores que precisam ficar atentos. Checar aquilo que leem. O avanço (das notícias falsas) é culpa deles”, disse, sem remorso, um dos principais responsáveis pelas fake news que alavancaram a eleição de Donald Trump – a exemplo da que dizia que o Papa Francisco apoiou o republicano.

Mas as fake news referem-se tão somente às coisas completamente falsas ou a toda gama de distorção, de manipulação? Uma manchete altamente tendenciosa, distorcida ou em desacordo com o texto pode ser chamada de fake news? O que é falso é apenas a mentira ou todas essas técnicas de manipulação também podem ser encaradas desse modo?

Para Ortellado, o que está em jogo também é a intecionalidade. “Fake news é aquela coisa que é falsa, que está errada, ou que é falsa de maneira maliciosa? O erro de uma apuração jornalística é fake news? Se a gente restringe ao erro malicioso, como é que a gente sabe a intenção do agente?”, questiona. Para ele, estas são áreas cinzentas, não resolvidas.

O que os pesquisadores geralmente concordam é que as fake news têm a natureza de interferir no debate político e estão relacionadas tanto à elevada intenção do autor em enganar, quanto ao baixo (ou atpe mesmo inexistente) nível de facticidade, ou seja, de relação com a verdade.

Mas se é mentira, porque as fake news são tão perigosas? “Esse tipo de conteúdo dialoga com pessoas que têm convições políticas muito firmes. Se minha crença é anterior, ela antecende todo o fluxo da faciticidade. Quanto maior a crença, menor a capacidade de olhar criticamente pro conteúdo”, ressalta Ortellado.

COMO IDENTIFICAR NOTÍCIAS FALSAS
Você conhece a fonte da publicação?

Sempre que ler uma notícia é essencial saber de onde ela partiu e quem está compartilhando. Existem portais de notícias que são bem conhecidos e costumam ter credibilidade, mas caso não conheça o site, desconfie. Entre no endereço, observe o ritmo de publicações e se as informações divulgadas por ele coincidem com as publicadas nos demais noticiários. Alguns costumam simular a marca, cores e tipo de letra de sites conhecidos, a fim de enganar os leitores. Fique atento a isso também!

Responsabilidade de checar é de todos
Se desconfiar de um conteúdo, coloque em prática a apuração, a checagem. Esse é um dever e um compromisso dos jornalistas, mas é uma responsabilidade sua também. Faça buscas e se certifique da informação, principalmente se pretende repassar à sua lista de contatos. Evite encaminhar informações sobre a quais não tem conhecimento ou certeza – mesmo (e especialmente) se elas terminarem com o pedido de “repasse ao maior número de pessoas”

A diferença mora nas fontes
Leia o texto e identifique quais pessoas foram ouvidas para a construção da reportagem. No jornalismo, elas são chamadas de fontes. Quais citações foram incluídas? Elas são consistentes? Existe algum tipo de crédito para agências de notícia ou menção a outros veículos jornalísticos? Refletir sobre estes pontos é crucial para desmascarar uma fake news.

Leia além dos títulos
O título deve sintetizar o assunto principal da notícia, mas muitas das vezes é trabalhado para despertar a atenção do leitor – e cliques! Em alguns casos, essa busca beira o sensacionalismo ou a imprecisão. Sempre que ver uma chamada desse tipo, leia toda a matéria para entender o que ela diz e fugir da interpretação errada.

Certifique-se da data de publicação
Com as redes sociais, é comum ver matérias antigas ganhando notoriedade. Isso porque elas costumam se relacionar ao contexto atual. Em momentos nos quais debates sobre determinados assuntos voltam à tona, atente-se para a data de publicação da notícia. Isso pode livrar você de estar circulando informação velha como nova.

Isso é uma piada?
Diversos sites são especializados em fazer sátiras, iventando notícias que flertam com o absurdo (muito embora, em alguns casos, elas simulem com precisão a realidade)para arrancar risos. O texto costuma ter um “verniz” jornalístico, mas caso ele lhe pareça muito surreal, confira se não é uma dessas brincadeiras. No Brasil, dois dois sites mais conhecidos são o Sensacionalista, o Surrealista e o Diário Pernambucano (não confunda com o Diário de Pernambuco, um dos mais importantes do estado).

A imagem corresponde à informação?
Outro aspecto importante para ter atenção é nas fotos usadas nas notícias. Caso duvide do conteúdo, pesquise as imagens em sites de busca e cheque se ela consta em alguma outra informação. Sites que produzem fake news, costumam “reciclar” essas imagens na esperança de agregar maior credibilidade. Foi o que aconteceu na notícia falsa sobre Marielle Franco com o traficante com o traficante Marcinho VP. A foto, retirada em um fotolog, não era nem da vereadora, nem do traficante.

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