Durante o caminho da história da humanidade, surgiram narrativas de pessoas que permanecem eternizadas nas mentes das populações. É o caso dos grandes heróis – aqueles em que parte de si se prende em uma específica faixa de tempo, imortalizados por um grande feito. Assim foi com Hércules e os 12 trabalhos, com Ulisses e a Guerra de Troia, e tantos outros.
Dadas as devidas proporções, o torcedor do Bahia também tem seus heróis, eternizados nas mentes de sua torcida: os campeões brasileiros em 1959 e os de 1988. Para aqueles de 1988, há uma data especial que habitará em suas memórias e na de qualquer outro Tricolor.
Em 19 de fevereiro de 1989, há exatos 30 anos, no Estádio Beira-Rio, o Bahia empatava sem gols contra o Internacional, após ter vencido a primeira partida, na Fonte Nova, por 2 a 1.
Após o apito do árbitro, aqueles jogadores se tornariam parte marcante da história do Bahia. Eles eram campeões do Campeonato Brasileiro de 1988.
Em 1988, Ayrton Senna ganhava seu primeiro titulo, o Muro de Berlim estava de pé e começava o fim da União Soviética. O mundo se transformou, mas, para aqueles jogadores, 1988 permanecerá eterno.
A partir daquele momento, este dia, e o ano de 1988, pelo qual o campeonato era válido, entrariam na história não só dos torcedores, mas de todos aqueles que atuaram dentro das quatro linhas. Bobô, deputado estadual, elegeu-se com o número 65.888; João Marcelo, zagueiro do time, usa o número 88 em sua conta pessoal no Instagram. “Este título é a minha vida. Eu deixo de ser aquele Marcelo, como era chamado na rua, e passo a ser chamado João Marcelo do Bahia. Zagueiro campeão brasileiro pelo Bahia. Eu mudei meu nome”, diz.
Da iniciativa de preservar a memória do triunfo surgiu a Associação dos Jogadores Campeões de 1988 (ACB88). “Tivemos a ideia da associação com a sugestão de Evaristo. Ele disse que no Barcelona tinha uma associação e isso ajudava a valorizar os atletas”, assinala João, presidente da ACB88. O grupo, que opera já regularmente, participa diretamente da organização dos eventos de celebração, como a missa na Igreja do Bonfim, na sexta-feira, ou a Levada Tricolor, um carnaval junto com a torcida que ocorreu no domingo, na Barra.“
“Amo essa relação com a torcida, de tirar foto com quem nem era nascido na época”
João Marcelo, zagueiro do Bahia
A torcida tricolor, aliás, também fez o seu papel para preservar a memória do título. “Após ser campeão, você passa a ser conhecido, você passa a não ter liberdade e essa não liberdade é algo bom. Amo essa relação com a torcida, de parar e tirar uma foto com pessoas que nem eram nascidas na época. Essa falta de liberdade se deve à grande conquista”, aponta o zagueiro.
“É fascinante você ver torcedores que te param e te lembram como os pais deles costumavam ir à Fonte Nova para nos prestigiar, contam como a vida deles se ligava à da gente”, afirma Bobô, craque do time.
Dos pés do craque saíram os feitos mais importantes da campanha na segunda fase. O gol do empate contra o Fluminense, no jogo de volta das semifinais – com 110 mil pessoas, público recorde do estádio – e os dois gols no primeiro jogo da final contra o Inter.
Mesmo com o protagonismo neste jogo, Bobô diz que o mais marcante foi contra o Sport, válido pelas quartas de final. “Principalmente o segundo jogo, foi o mais difícil. Foi uma questão de rivalidade regional, fomos para uma prorrogação na Fonte Nova, uma tensão muito grande”, revela. “Foi ali que pensamos que poderíamos conseguir o título”.

Título improvável
Heróis de um título improvável, todo os atletas titulares da reta final (Ronaldo, Tarantini, João Marcelo, Claudir, Paulo Robson; Paulo Rodrigues, Gil Sergipano, Zé Carlos, Bobô; Marquinhos, Charles) saíram da própria base do Bahia ou vieram de times de menor expressão.
Dos 11, sete são baianos, três vindos de clubes do interior (Claudir, Bobô e Tarantini), e quatro vieram de fora do Estado: Paulo Róbson, do São Bento de Sorocaba; Paulo Rodrigues, do Botafogo de Ribeirão Preto, Gil Sergipano e Marquinhos, do futebol de Sergipe.
“O Bahia tinha um elenco muito reduzido. Tivemos dificuldades em alguns jogos e era difícil manter a equipe seguidamente”, aponta Ronaldo, goleiro do time.
Ainda durante o caminho entre a primeira e segunda fase, o Bahia tem as perdas de Renato, atacante titular na primeira fase, do zagueiro Pereira e do goleiro Sidmar, que trocou o Bahia pela Portuguesa. Há males que vêm para o bem – a saída de Renato deu a titularidade a Charles, atacante que fez o gol contra o Sport, no 1 a 1 na Ilha do Retiro, no jogo de ida.
Boa parte dos jogadores mais importantes veio da base e cresceu torcendo e defendendo a camisa do clube. “É um grande sonho de um menino que não tinha capacidade de ser um profissional, ser campeão, artilheiro do time”, diz Zé Carlos, nove gols na campanha.
Bobô, meia do Bahia
Retorno triunfal
Como toda boa festa, ela se alongou por mais de um dia. A conquista tricolor, 30 anos atrás, foi no Beira-Rio, contra o Internacional, em Porto Alegre. Celebrado o título entre a torcida naquele dia, restava comemorar com os jogadores, no retorno triunfal.
A espera se alongaria por mais três dias. Os jogadores seguiram concentrados em Porto Alegre para jogar no dia 21 contra o Inter, novamente, pela Copa Libertadores. O resultado foi um triunfo por 2 a 1.
Se a recepção já seria memorável, o triunfo na competição continental aumentou as proporções – cerca de 30 mil pessoas foram até o Aeroporto 2 de Julho no dia 22 para receber os jogadores. Um trio elétrico aguardava os heróis para fazer o caminho dali até a Praça Castro Alves, no Campo Grande.
“Quando a gente desceu do avião, ave Maria! Foi ali que percebemos a grandeza da conquista”, suspira Bobô.
Para seguir lembrando
Já teve missa, teve festa, homenagens para o Museu do Bahia, e ainda tem mais coisa para lembrar o título de três décadas atrás: ’88 Também’ é um documentário feito por Chico Kertész para falar sobre o título.
O cineasta ouviu os protagonistas do título, jornalistas e personalidades. O documentário tem previsão de lançamento em agosto deste ano.
Além do audiovisual, tem livro: ’88 histórias sobre a segunda estrela’ narra histórias do tempo do título. “Serão 88 capítulos curtos com histórias daquela campanha. Cito passagens de anos anteriores relacionadas ao título e o livro se estende para contar histórias da cidade – como era Salvador em 1988”, fala o jornalista Flávio Novais, escritor do livro.

