sábado, 7 março, 2026

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Tatiana Sampaio, pesquisadora da polilaminina, admite erros e afirma que revisará artigo científico

A pesquisadora Tatiana Sampaio, responsável pelo estudo que apresentou a polilaminina como possível tratamento para lesões na medula espinhal, afirmou que fará correções no artigo científico que descreve os primeiros testes em humanos.

Segundo Sampaio, o texto passará por uma revisão geral, com ajustes na apresentação dos dados, correções técnicas e mudanças na forma como os resultados foram descritos. A cientista explicou que a versão divulgada anteriormente era apenas um pré-print, ou seja, um rascunho preliminar disponibilizado antes da revisão por outros pesquisadores. A informação é do site g1.

“Esse pré-print eu coloquei assim no momento. Eu pensei: ‘isso aí não vai dar Ibope, vou deixar lá só para registrar que a gente fez isso em algum momento, por questões de autoria’. Mas ele não estava bem escrito”, afirmou.

O que é a polilaminina

A polilaminina é uma proteína derivada da laminina, molécula presente naturalmente nos tecidos do corpo humano e responsável por dar suporte às células.

A hipótese do tratamento é que, aplicada na medula espinhal lesionada, a substância possa estimular a regeneração de conexões nervosas. O estudo divulgado em fevereiro de 2024 reúne resultados de cerca de duas décadas de pesquisas conduzidas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os testes experimentais envolveram oito pacientes humanos a partir de 2018. Antes disso, os pesquisadores avaliaram o efeito da molécula em cães. A pesquisa também recebeu investimentos da farmacêutica Cristália, que já aplicou cerca de R$ 100 milhões no projeto com o objetivo de transformar a substância em medicamento.

Repercussão e críticas

No início deste ano, o estudo ganhou grande repercussão após entrevistas concedidas por Tatiana ao lado de Bruno Drummond, um dos pacientes participantes da pesquisa que sofreu lesão medular e voltou a andar.

A divulgação gerou forte repercussão nas redes sociais e também críticas de especialistas. Pesquisadores apontaram inconsistências na apresentação de alguns dados e questionaram a interpretação da eficácia do tratamento.

De acordo coma reportagem do g1, entre os pontos citados, há um caso em que um paciente morreu poucos dias após o procedimento, mas aparecia no estudo com registros de melhora cerca de 400 dias depois. Tatiana afirmou que se trata de um erro de digitação e que os dados pertencem a outro participante.

“Foi um erro de digitação, isso está errado”, disse.

Mudanças previstas no artigo

Segundo o g1,  a pesquisadora afirma que o artigo passará por diversas alterações técnicas. Entre elas estão correções em gráficos, ajustes na forma de apresentação de exames e revisão da redação do texto.

Um dos pontos envolve a apresentação de resultados de eletromiografia, exame que avalia o funcionamento de músculos e nervos responsáveis pelos movimentos do corpo. A cientista afirmou que uma das figuras do artigo será substituída por apresentar dados brutos de forma inadequada.

“Não tem nenhum dado novo, tá? Então é exatamente a mesma coisa. Só que dito de uma maneira melhor e com figuras um pouco mais cuidadas”, explicou.

Segundo o site, outra mudança será a inclusão de uma análise separando os pacientes por tipo de lesão medular. Segundo Tatiana, todos os quatro participantes com lesões torácicas evoluíram do grau A para o grau C na Escala de Avaliação da Lesão Medular (AIS).

Publicação científica

De acordo com a pesquisadora, uma versão revisada do artigo já foi apresentada a duas revistas científicas – a Springer Nature, do grupo Nature, e o Journal of Neurosurgery – mas acabou rejeitada.

Tatiana afirmou que prepara agora uma nova versão do manuscrito com o objetivo de submetê-lo novamente para publicação em um periódico científico.

A cientista também informou que o novo texto não será divulgado publicamente antes de passar pelo processo de revisão por pares e ser aceito por uma revista.

Dúvidas científicas

Segundo especialistas ainda existem muitas dúvidas sobre a eficácia da polilaminina. Um dos principais questionamentos é se as melhoras observadas nos pacientes foram causadas pela substância ou por outros tratamentos aplicados simultaneamente.

No estudo divulgado até agora, todos os participantes passaram por cirurgia e cerca de 200 horas de fisioterapia intensiva – procedimentos que, por si só, já podem gerar algum grau de recuperação.

Outra preocupação envolve a segurança do tratamento. Como o estudo ainda é pequeno e preliminar, pesquisadores apontam a necessidade de ensaios clínicos maiores para avaliar riscos e possíveis efeitos adversos.

Os próximos passos

Para que a polilaminina seja transformada em medicamento, ainda serão necessários ensaios clínicos regulatórios em humanos.

O início da fase 1, voltada à avaliação de segurança em pequeno grupo de participantes, foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em janeiro, mas o processo ainda está em análise por um comitê de ética.

Caso essa etapa comprove a segurança da substância, serão necessários testes maiores nas fases 2 e 3, quando são avaliadas eficácia, doses adequadas e possíveis efeitos adversos. Somente após essas etapas é possível solicitar o registro sanitário do medicamento.

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