O democrata Zohran Mamdani venceu as eleições para a prefeitura de Nova York, nos Estados Unidos da América. Aos 34 anos, o jovem político africano, muçulmano e autodeclarado socialista construiu uma trajetória improvável e conquistou o eleitorado com uma campanha fortemente baseada nas redes sociais.
Mamdani chamou atenção ao anunciar sua candidatura pelo TikTok, durante uma maratona. O formato espontâneo e a linguagem próxima do público renderam milhões de visualizações e o ajudaram a vencer as primárias democratas, derrotando o experiente ex-governador Andrew Cuomo, que mais tarde tentou voltar à disputa como candidato independente.
O novo prefeito tornou-se símbolo de renovação dentro do Partido Democrata após a derrota presidencial de 2024. Comparado por analistas ao ex-presidente Barack Obama, Mamdani conquistou eleitores jovens e descontentes com o establishment político. “Eu mal havia ouvido falar de Mamdani, e não sabia que ele ia concorrer até ele aparecer no meu feed do Instagram e TikTok”, contou o escritor nova-iorquino Chris Hayes, autor de O Canto da Sereia, ao The New York Times.
Campanha digital e agenda progressista
Os vídeos de Mamdani, com humor, estética cinematográfica e referências a Bollywood, conquistaram mais de 23,6 milhões de curtidas no TikTok, onde ele soma 1,6 milhão de seguidores. Mas o sucesso não se explica apenas pela estratégia digital. Sua pauta de governo — com foco em moradia, transporte e combate à desigualdade — falou diretamente às necessidades dos nova-iorquinos.
Entre as propostas, estão a criação de supermercados subsidiados, gratuidade no transporte público e nas creches, além do congelamento do aluguel para cerca de um milhão de pessoas. “O sonho de todo muçulmano é simplesmente ser tratado da mesma forma que qualquer outro nova-iorquino”, declarou Mamdani em outubro, ao dizer que não viveria mais “nas sombras”.
Nascido em Kampala, Uganda, e filho da cineasta Mira Nair e de um pai ugandês, Mamdani chegou aos Estados Unidos aos 7 anos. Fluente em seis idiomas — inglês, hindi, bengali, urdu, árabe e espanhol —, ele entende bem a diversidade da cidade que agora governa.
Choque político e reação adversária
A candidatura do democrata provocou turbulência no partido. Cuomo, de 67 anos, desistiu de tentar a reeleição como democrata e lançou candidatura independente com o apoio do então prefeito Eric Adams e, surpreendentemente, do presidente Donald Trump. O republicano chamou Mamdani de “lunático comunista” e afirmou que não permitiria “que o filho de indianos destruísse Nova York”.
A crítica do magnata reforçou a polarização da disputa. Em resposta, Mamdani declarou: “Ontem, Andrew Cuomo riu quando um apresentador disse que eu comemoraria outro 11 de Setembro. Eric Adams me comparou a extremistas e mentiu dizendo que buscamos incendiar igrejas. Ainda existem formas de ódio aceitáveis nesta cidade”.
Desafios e promessas
Entre os maiores problemas enfrentados por Nova York estão o alto custo de vida e a crise habitacional. Em junho, o aluguel médio superou US$ 4 mil (R$ 21,8 mil), o dobro da média nacional. Mamdani promete congelar valores para dois milhões de inquilinos e ampliar a construção de moradias.
Sua campanha também incluiu defesa de políticas para a população LGBTQIA+, combate ao racismo e à islamofobia e taxação progressiva sobre grandes fortunas. “Francamente, eu não acho que deveríamos ter milionários”, afirmou o novo prefeito em discurso.
Mesmo com críticas da ala tradicional do Partido Democrata, que o considera “radical demais”, Mamdani conquistou o eleitorado que busca renovação política. Sua vitória representa uma virada simbólica nos Estados Unidos — um país em que a diversidade e o discurso progressista voltam a ganhar força, mesmo em meio à polarização nacional.
