terça-feira, 10 fevereiro, 2026

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Estudante alfabetizada aos 11 anos conquista vaga na UEFS pelo SISU

Da Redação

Alfabetizada tardiamente, aos 11 anos, a estudante Gabriele Souza Costa, hoje com 21, transformou dificuldades iniciais de aprendizagem em motivação para seguir nos estudos e garantir uma vaga no Ensino Superior. Egressa do Colégio Estadual de Tempo Integral de Biritinga, no Território do Sisal, ela foi aprovada no curso de Agronomia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) por meio do Sistema de Seleção Unificada (SISU) 2026.

A conquista representa uma virada decisiva em sua trajetória pessoal e educacional. Convicta de que a educação amplia perspectivas e transforma vidas, Gabriele celebra o ingresso na universidade como a abertura de um novo ciclo de oportunidades, após anos marcados por desafios sociais, financeiros e familiares.

Em casa, o incentivo sempre veio da avó Maria das Graças de Souza, conhecida como dona Gracinha, de 72 anos. Mesmo sem ter frequentado a escola, ela fez da educação um valor central na criação dos netos. “Quando Gabriele engravidou, foi um susto para nós. Ela teve que parar um pouco os estudos e eu disse que não ia ajudar a cuidar do menino. Mas aí eu voltei atrás e fiquei incentivando que ela voltasse para a escola. Toda vida eu incentivei: ‘olha, minha filha, estude para Deus ajudar a conseguir um serviço melhor. Estude, porque sem os estudos a gente não é nada e tu não vai me achar por vida’”.

Foto: Viviane Macêdo

Na escola, o apoio dos professores e da gestão foi determinante para que Gabriele não desistisse. “Eu só tenho elogios e gratidão aos educadores e à gestão. A escola teve um papel muito significativo na minha trajetória e os professores foram meus maiores incentivadores. Quando pensava em desistir, eles estavam ali prontos para me motivar, para tirar minhas dúvidas, me ensinar. O professor Mateus, de Sociologia, me acolheu desde o primeiro momento que voltei para o colégio, após a licença maternidade”, relatou.

Sem condições de pagar cursinho preparatório, a estudante organizou sozinha sua rotina de estudos. “Quando voltava do colégio, tinha que dividir o tempo com os cuidados com meu filho Miguel e os afazeres de casa, mas dedicava duas horas para os estudos, através do celular e dos conteúdos da escola, pois não tinha condições de pagar um cursinho”.

O professor Mateus Tavares, de Sociologia, destacou o peso simbólico da aprovação. “A história de vida dela, por si só, revela o valor dessa vitória. Uma menina que foi alfabetizada aos 11 anos de idade torna esta conquista ainda mais valorosa”. Já a professora de Língua Portuguesa, Joanne de Jesus, ressaltou o perfil da aluna. “Uma coisa que me chamou bastante atenção nela, desde o início, foi o gosto pela leitura. Então, isso fez com que eu me encantasse por ela, a incentivasse neste hábito e fomentasse nela questionamentos para que alçasse novos voos”.

Para o diretor da unidade escolar, Mário Tierres, o resultado já era esperado. “Diria que foi uma grande alegria. Já era esperado esse sucesso de Gabi, pela sua dedicação, pelo seu empenho, pela sua liderança em sala de aula”.

Mãe solo do pequeno Miguel, de um ano e dez meses, Gabriele vê nos estudos a principal ferramenta para mudar sua realidade financeira. “A única saída para transformar a minha realidade de mãe solo e pobre é estudar e sonhar com um futuro digno, trabalhar na área, fazer um doutorado, construir minha casa própria, proporcionar uma vida digna ao meu filho, que é meu principal desejo”.

As dificuldades de aprendizagem e concentração, que atrasaram sua alfabetização, ficaram no passado. Prestes a iniciar a graduação na UEFS, Gabriele segue movida pela perseverança e pela consciência de que as escolhas do presente constroem um futuro com mais oportunidades no mundo do trabalho.

Atualmente desempregada, dependente do apoio da família e de programa social, e após experiências de trabalho informal, ela pretende aproveitar ao máximo a oportunidade no Ensino Superior. Durante a jornada universitária, contará com o suporte de uma creche para o filho e com a rede familiar, formada pela avó, tias, primas e, eventualmente, pela mãe Rosilene, que vive em Inhambupe. “Estou buscando o meu sonho de melhorar de vida, principalmente a do meu filho, e já me sinto vencedora e grata por todo apoio que recebo da minha família e da escola”.

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