quinta-feira, 19 março, 2026

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A guerra do delivery no Brasil: Estratégia, exclusividade e novos players

Artigo assinado por Tiago de Caires Mendes, presidente e sócio-fundador do Rei do Parmegiana

O Brasil viveu nos últimos anos uma verdadeira revolução no segmento de delivery de comida. O avanço dos aplicativos transformou não apenas o comportamento do consumidor, mas também a forma como estabelecimentos gastronômicos estruturam seus modelos de negócio. Minha experiência com o Rei do Parmegiana reflete bem esse cenário dinâmico, competitivo e em constante evolução.

Quando iniciamos nossa operação de delivery no Brasil, o iFood atuava como líder absoluto no mercado. Com uma base consolidada de usuários e ampla presença nacional, a plataforma se tornou o principal canal de vendas para restaurantes que desejavam ampliar alcance sem investir em estrutura física adicional.

A parceria com o iFood nos trouxe visibilidade, volume de pedidos e um processo eficiente de adaptação ao delivery como modelo central de vendas. Para muitos empreendedores, ele se tornou sinônimo de delivery no Brasil — com prós e contras, como taxas, disputas por posicionamento e necessidade de investimento em marketing dentro da plataforma.

A Uber Eats ao Brasil trouxe expectativa de maior competição e opções para consumidores e restaurantes. Sua presença inicialmente foi vista como uma alternativa aos custos e práticas de fidelização do mercado. No entanto, com o tempo, a Uber Eats acabou deixando o mercado brasileiro, após enfrentar dificuldades para escalar sua operação e competir de forma sustentável com o iFood.

Esse movimento deixou claro que a competição em delivery vai muito além de tecnologia: é também sobre capacidade de investimento, adaptação ao perfil do consumidor brasileiro e volume de transações. Já a plataforma colombiana Rappi estabeleceu operação no Brasil com a promessa de competir com os grandes. Apesar de ser uma marca forte em outros países da América Latina, no mercado brasileiro ela ainda não conseguiu uma consolidação sólida nem ganhar participação significativa entre usuários e restaurantes.

Adicionalmente, o mercado viveu disputas judiciais envolvendo práticas de fidelização — questões que impactaram a atuação de plataformas e envolveram ajustes em modelos de exclusividade e relacionamento com os restaurantes.

Após questões judiciais e negociações com as plataformas, decidimos fechar um acordo de exclusividade com o iFood. Essa escolha foi motivada pela consolidação do canal, pelo volume de pedidos e pela previsibilidade operacional que a plataforma oferece. Em um cenário de competição incerta, apostar na maior fatia de mercado tem sido uma estratégia que reforça nossa presença e fluxo de vendas.

O mercado brasileiro continua atraente para novos competidores. A 99 Food tem demonstrado interesse em entrar no segmento de delivery de comidas — inclusive com propostas financeiras robustas para quebrar exclusividades existentes e recriar um ambiente competitivo. A ideia de pagar milhões para incentivar restaurantes a migrarem de plataforma mostra ambição, mas também sinaliza riscos de sustentabilidade do modelo se não houver volume e retenção de usuários. Paralelamente, a chinesa Keeta anuncia sua entrada no mercado brasileiro, trazendo investimentos e a promessa de um novo player capaz de dinamizar ainda mais o setor. No entanto, a capacidade de conquistar usuários e oferecer diferenciais suficientes ainda é uma grande incógnita.

Diante desse cenário, a pergunta que muitos fazem é: como estará o mercado de delivery no Brasil daqui a dois anos?

Em um mercado em constante movimento, a adaptabilidade será o maior diferencial. Para restaurantes, essa realidade exige olhar holístico: tecnologia, atendimento, experiência do consumidor e um entendimento claro de custos e retorno em cada plataforma.

O delivery já não é apenas um canal de vendas — ele é parte essencial da estratégia de crescimento. E acompanhar esse ecossistema com visão crítica e estratégica fará diferença para quem pretende não apenas sobreviver, mas prosperar.

Atenciosamente,
Juracy dos Anjos

 

Tiago de Caires Mendes/ Foto: Arquivo pessoal

 

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