quinta-feira, 2 abril, 2026

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Cerca de 3,5 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais podem estar em alto risco de quedas

Só de incluir duas perguntas – se o idoso tem preocupação com quedas e se sente instabilidade ao caminhar -, pesquisadores brasileiros conseguiram quadruplicar a identificação de pessoas em risco intermediário de quedas.

O resultado vem de um estudo publicado na revista European Geriatric Medicine, que aplicou pela primeira vez o Algoritmo das Diretrizes Mundiais para Prevenção de Quedas (WGF, na sigla em inglês) a uma amostra representativa da população idosa brasileira.

O trabalho analisou dados de 7.515 participantes com 60 anos ou mais do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), coletados entre 2023 e 2024. Os pesquisadores aplicaram dois métodos do mesmo algoritmo: um baseado apenas no histórico de quedas nos últimos 12 meses, e outro que incorpora também as chamadas questões-chave  – preocupação com quedas, medida por uma escala validada, e instabilidade postural, avaliada por um teste de equilíbrio.

Pelo método tradicional, 82,2% dos idosos foram classificados como baixo risco, 7,8% como intermediário e 10% como alto risco. Já quando as questões-chave foram incluídas, o cenário mudou substancialmente: 50,4% permaneceram em baixo risco, 34,6% passaram a ser classificados como intermediário e 15% como alto risco. Com base nesse último dado e nas estimativas populacionais do Censo 2022, os pesquisadores calculam que aproximadamente 3,5 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais podem estar em alto risco de quedas.

“No Brasil, a gente não tinha nenhum método específico para fazer essa classificação. A grande diferença desse algoritmo é que ele sugere essa estratificação do risco de cair e, baseado nessa estratificação, ele já sugere o que deveria ser feito para essa população”, explica Núbia Carelli Pereira de Avelar, fisioterapeuta e pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e primeira autora do estudo.

O estudo também identificou disparidades regionais que só se tornaram visíveis com o método das questões-chave. Idosos do Nordeste e do Sudeste tiveram maior probabilidade de serem classificados como risco intermediário em comparação aos da região Sul. Pelo método do histórico de quedas, nenhuma diferença regional foi detectada. Segundo a pesquisadora, fatores como desigualdades socioeconômicas, diferenças culturais e barreiras de acesso a recursos de saúde podem ajudar a explicar esse padrão.

Para além dos números, o estudo aponta implicações diretas para o sistema de saúde. Idosos em alto risco de quedas estão mais sujeitos a fraturas, hospitalizações e perda de independência, com impacto social e econômico significativo, especialmente em países com recursos limitados. “Se pensássemos em estratégias para reduzir a ocorrência dessas quedas, saberíamos como alocar melhor os recursos que já são limitados em países de renda média”, diz Avelar.

A pesquisadora destaca que os resultados chegam em um momento oportuno, diante do movimento em curso para a criação de um Programa Nacional de Prevenção de Quedas no Brasil. Na visão da equipe, o ideal seria que profissionais de saúde passassem a incluir rotineiramente as três perguntas do algoritmo na triagem de pacientes idosos: histórico de quedas, preocupação com quedas e instabilidade. Dependendo do nível de risco identificado, as condutas poderiam variar desde orientações educativas, no caso de baixo risco, até encaminhamento para fisioterapia e avaliação multidisciplinar, para os grupos intermediário e alto.

O ELSI-Brasil foi financiado pelo Ministério da Saúde por meio do Departamento de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (DECIT/SCTIE) e da  Coordenação de Saúde da Pessoa Idosa na Atenção Primária, Departamento dos Ciclos da Vida da Secretaria de Atenção Primária à Saúde (COPID/DECIV/SAPS).

Fonte: Agência Bori

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