Da Redação
Um dos condenados pelo assassinato da ialorixá e líder quilombola Mãe Bernadete morreu durante confronto com policiais militares na madrugada desta quinta-feira (16), na zona rural de Catu, na Região Metropolitana de Salvador. Marílio dos Santos, conhecido como “Maquinista”, foi apontado como mandante do crime e estava foragido, mesmo após ter sido condenado a 29 anos e 9 meses de prisão na última terça-feira (14). A informação é do g1.
Segundo a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), a morte ocorreu durante uma tentativa de cumprimento de mandado de prisão. Com ele, foram apreendidos uma arma de fogo e munições. Marílio era considerado chefe do tráfico de drogas na região e ocupava a posição de “Ás de Ouros” no Baralho do Crime, catálogo que reúne os foragidos mais perigosos do estado.
De acordo a reportagem, as investigações apontam que ele teria ordenado o assassinato de Mãe Bernadete por conta da oposição que a líder quilombola fazia às atividades criminosas do grupo. Mesmo foragido, foi levado a júri popular por possuir advogado constituído.
O julgamento ocorreu na capital baiana e foi concluído por volta das 21h da terça-feira (14), após dois dias de audiência no Fórum Criminal Ruy Barbosa, no bairro de Nazaré, quase três anos após o crime.
Apontado como executor, Arielson da Conceição dos Santos também foi julgado e recebeu a mesma pena: 29 anos e 9 meses de prisão. Segundo o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), ambos foram condenados por homicídio qualificado por motivo torpe, meio cruel, impossibilidade de defesa da vítima e uso de arma de uso restrito. Arielson também foi condenado por roubo.
Em nota, a Anistia Internacional afirmou que as condenações representam um avanço, mas destacou que o caso ainda exige desdobramentos.
“A condenação dos réus deve ser reconhecida como um passo relevante, mas não pode servir para encerrar o caso politicamente nem para aliviar a pressão sobre o Estado. Justiça, neste caso, só existirá de forma efetiva quando houver responsabilização completa, reparação integral e mudança concreta nas práticas institucionais que seguem expondo defensoras e defensores à violência. A memória de Mãe Bernadete impõe ao Estado brasileiro não apenas o dever de punir, mas a obrigação de transformar. É por isso que reafirmamos: defender direitos não pode custar vidas”.
Relembre o caso
O assassinato de Mãe Bernadete ocorreu em agosto de 2023, no quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador. A líder religiosa estava dentro de casa com três netos quando dois homens armados invadiram o imóvel.
Os suspeitos retiraram as crianças da sala e efetuaram 25 disparos contra a vítima. O inquérito policial concluiu que o crime foi encomendado por um chefe do tráfico de drogas da região.
Ao todo, seis homens foram identificados como envolvidos no crime, mas apenas dois foram julgados até o momento.
Investigações
Outros suspeitos seguem respondendo ao processo:
-Josevan Dionísio: apontado como executor, foi preso em setembro de 2025 após fazer a companheira e dois filhos reféns em Simões Filho. Ainda não há data para julgamento.
-Sérgio Ferreira de Jesus: suspeito de receptar celulares roubados no dia do crime e de ter instigado a ação. Também teria indicado a rota para a execução.
-Ydney Carlos dos Santos de Jesus: apontado como integrante do tráfico e suspeito de auxiliar no planejamento do assassinato.
-Carlos Conceição Santiago: investigado por armazenar armas e facilitar a fuga de um dos executores.
Nenhum dos demais envolvidos teve julgamento marcado até o momento.
Indenização à família
Em 2025, familiares de Mãe Bernadete ingressaram com ação indenizatória contra a União e o Governo da Bahia, apontando falhas na proteção da vítima, que estava sob acompanhamento policial há pelo menos dois anos antes do crime.
O pedido inicial foi de R$ 11,8 milhões por danos morais para os três netos presentes no momento do assassinato e uma filha da líder quilombola. Em fevereiro deste ano, a Procuradoria Geral do Estado (PGE) informou que os pagamentos foram concluídos, mas os valores permanecem sob sigilo.
Segundo Jurandy Pacífico, filho da vítima, o acordo tem caráter protetivo e simbólico, diante da gravidade do caso.

