terça-feira, 26 maio, 2026

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Bolsa Família: estudos rebatem fala de Luciano Huck

Da Redação

Declarações do apresentador Luciano Huck sobre uma suposta dependência “eterna” de famílias pobres do Bolsa Família foram contestadas por estudos de instituições nacionais e internacionais, como Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, Fundação Getulio Vargas (FGV) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A informação pe da reportagem do site UOL.

Durante participação em um fórum promovido pela Esfera Brasil, no Guarujá, no último sábado (23), Huck afirmou que o programa social desestimularia a busca por emprego. Ao citar o município de Senhor do Bonfim, na Bahia, o apresentador declarou: “O prefeito de Senhor do Bonfim [Laércio Júnior (União Brasil)] tem 56% da sua economia no Bolsa Família. O que acontece? Você não gera nenhum tipo de estímulo para que as famílias queiram sair do Bolsa Família”.

Na sequência, ele acrescentou: “Na verdade, elas criam um monte de atalhos para conseguir ficar no programa de distribuição de renda e proteção social ad aeternum [eternamente]”.

Levantamentos recentes, porém, apontam cenário diferente. Um estudo da FGV revelou que cerca de 61% dos beneficiários registrados em 2014 deixaram o programa até 2025. As maiores saídas ocorreram entre jovens de 15 a 17 anos, com índice de 71,2%, e na faixa de 11 a 14 anos, com 60,8%.

O levantamento também mostrou que muitos inscritos no Cadastro Único deixaram o Bolsa Família após ingressarem no mercado de trabalho. Segundo a pesquisa, 28,4% dos beneficiários tinham carteira assinada em 2025.

Outro estudo da FGV, desenvolvido em parceria com as universidades norte-americanas de Stanford e Columbia e divulgado neste mês, apontou aumento de quase 5% na taxa de ocupação entre beneficiários do programa.

A pesquisa destacou ainda crescimento da produtividade e da oferta de trabalho entre as famílias atendidas. “As transferências podem funcionar como investimentos que aumentam a produtividade, em vez de pura redistribuição”, afirma o estudo.

O levantamento acrescenta: “Nossas conclusões desafiam a visão canônica de que as transferências de renda desestimulam o trabalho”.

Dados do Banco Mundial também indicam que a permanência no programa não é permanente para a maioria das famílias. O estudo, que acompanhou beneficiários entre 2012 e 2019, apontou que 23% ficaram menos de três anos no Bolsa Família, enquanto 40% permaneceram por mais de sete anos.

Outro dado apresentado pelo Ipea mostra redução do desemprego entre os 20% mais pobres da população. Entre 2019 e 2023, a taxa caiu 4,3 pontos percentuais. Nesse mesmo grupo, a renda real do trabalho cresceu, em média, 9,5% ao ano, acumulando alta de 43,6% em quatro anos.

Segundo o instituto, o benefício médio de R$ 680 permite que famílias tenham condições de recusar vagas extremamente precárias e buscar empregos melhores, contribuindo para o aumento do emprego formal e da renda.

Um estudo do Banco Mundial publicado em 2019 também apontou maior participação de beneficiários no mercado de trabalho. Adultos atendidos pelo programa apresentavam 70% de chance de estar na força de trabalho e 57% de probabilidade de estarem empregados, superando índices de não beneficiários.

O Fundo Monetário Internacional também concluiu que o Bolsa Família não reduz de forma sistemática a participação feminina no mercado de trabalho. Segundo o relatório publicado em fevereiro deste ano, o auxílio ajuda mulheres a custear transporte e educação dos filhos, facilitando a busca por emprego.

“O Bolsa Família parece não reduzir sistematicamente a participação delas na força de trabalho, exceto entre mulheres com crianças de até 6 anos”, afirmou o FMI.

Dados do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) mostram ainda que 2,06 milhões de famílias deixaram o programa entre janeiro e outubro de 2025. No mesmo período, o Bolsa Família registrou 18,9 milhões de famílias atendidas, menor número desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo o levantamento, 1,31 milhão de famílias deixaram o programa após ultrapassarem o limite de renda exigido. Outras 726,7 mil concluíram o período da chamada Regra de Proteção, mecanismo criado para evitar a perda imediata do benefício após aumento de renda ou obtenção de emprego formal.

Entre os principais fatores apontados para a saída das famílias do programa estão conquista de emprego formal, aumento salarial, abertura de pequenos negócios e ampliação da escolaridade.

As chamadas condicionalidades do Bolsa Família — como frequência escolar, vacinação em dia e acompanhamento pré-natal — também são apontadas como importantes ferramentas no combate à pobreza entre gerações.

“Pais que têm mais acesso à educação conseguem romper a pobreza que a gente chama de pobreza intergeracional. Então, filhos de pais mais educados também conseguem sair mais do programa”, afirmou Valdemar Rodrigues de Pinho Neto.

Outro mecanismo destacado pelo governo federal é o chamado Retorno Garantido, que dá prioridade para famílias voltarem ao programa caso retornem à situação de vulnerabilidade social.

Pesquisas também apontam impactos positivos do Bolsa Família na saúde pública. Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz publicado no ano passado na revista científica The Lancet Public Health estimou que o programa evitou 8,2 milhões de internações e 713 mil mortes entre 2004 e 2019.

Segundo o levantamento, houve redução de 31% nas hospitalizações e de 25% na mortalidade no período analisado.

O Banco Mundial classificou o Bolsa Família como uma das políticas sociais mais eficientes do mundo. De acordo com o estudo, o programa consumiu cerca de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e reduziu a pobreza extrema no Brasil em 28% no ano de 2017.

Após a repercussão negativa das declarações, Luciano Huck afirmou que sua fala havia sido “tirada de contexto”. O apresentador declarou ainda não ser contra programas sociais e defendeu o aperfeiçoamento constante dos benefícios.

“A tecnologia hoje nos permite entender a realidade de cada família e individualizar esses programas para os recursos chegarem de forma ainda mais eficiente a quem realmente precisa”, afirmou em publicação nas redes sociais.

Especialistas apontam que programas de transferência de renda são adotados em diversos países como mecanismos de combate à pobreza extrema e de estímulo à inclusão social. No Brasil, o Bolsa Família também é utilizado como ferramenta de permanência escolar e ampliação do acesso à saúde básica.

Além da transferência de renda, o programa estabelece critérios e acompanhamento contínuo das famílias beneficiadas, o que permite atualização cadastral e revisão periódica da situação socioeconômica dos inscritos.

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