segunda-feira, 12 outubro, 2026

EXPEDIENTE | CONTATO

Banco Master conseguiu captar fundos públicos após contato de ACM Neto e Lupi

Da Redação

ACM Neto aparece em mensagens de dirigentes do Banco Master durante uma articulação para reverter a exclusão do banco de uma lista que permitia captar recursos de fundos de previdência de estados e municípios. Os registros mostram que um executivo da instituição se reuniu com o então prefeito de Salvador em 25 de abril de 2024, antes de o banco ser reincluído na relação. A informação é do site UOL.

A movimentação envolveu contatos com o ex-prefeito de Salvador ACM Neto e uma reunião com o então ministro da Previdência Social, Carlos Lupi, antes de o banco ser reincluído na lista de instituições autorizadas, em maio de 2024.

As conversas fazem parte de uma reportagem do colunista Cézar Feitoza, publicada pelo UOL, que reconstruiu os bastidores da inclusão do banco controlado por Daniel Vorcaro na relação de instituições habilitadas a receber investimentos dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS).

Segundo a publicação, o Master já havia recebido R$ 490 milhões de fundos previdenciários antes da divulgação da lista que deixou a instituição de fora. A exclusão gerou preocupação entre executivos, que consideravam a captação desses recursos importante para a continuidade das operações do banco.

O episódio ganha dimensão diante do volume total de recursos captados posteriormente. De 2023 até a liquidação da instituição, em novembro de 2025, fundos de previdência investiram R$ 4,5 bilhões no Banco Master, conforme os dados citados pelo UOL. O dinheiro não tem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e fundos estaduais tentam recuperar os valores por meio da Justiça.

Mensagens mostram preocupação após exclusão do banco

A crise começou em abril de 2024, quando o diretor comercial do Master à época, Fernando Mascarenhas, informou a Vorcaro que o Ministério da Previdência havia publicado uma lista de instituições autorizadas a operar recursos dos RPPS sem incluir o banco.

Em mensagem enviada em 23 de abril, Mascarenhas demonstrou preocupação com a decisão e defendeu uma reação. Ele argumentou que a instituição estaria sendo prejudicada e questionou os critérios utilizados pelo ministério.

Vorcaro, por sua vez, orientou o executivo a buscar a inclusão do banco na relação. Segundo as mensagens reproduzidas pelo UOL, o banqueiro considerava necessário apresentar documentos relacionados à composição da administração da instituição e pedir diretamente a alteração da lista.

Nos dias seguintes, as conversas passaram a registrar contatos políticos e a organização de reuniões para discutir o impasse.

ACM Neto entrou nas conversas antes da mudança

De acordo com a reportagem, Mascarenhas se reuniu com ACM Neto em 25 de abril de 2024 para tratar do assunto. No dia seguinte, o Banco Master encaminhou ao Ministério da Previdência um documento contestando as exigências adotadas para a inclusão de instituições financeiras na lista.

No texto, o banco sustentou que as novas condições haviam provocado surpresa no mercado e argumentou que a permanência fora da relação poderia comprometer suas atividades. A instituição também afirmou que vinha se preparando para oferecer ativos financeiros aos fundos de previdência.

Após o encontro com ACM Neto, Mascarenhas informou a Vorcaro que gostaria de conversar por telefone para atualizá-lo sobre uma reunião com Carlos Lupi. O diretor comercial também pediu autorização para organizar o deslocamento entre São Paulo e Brasília, onde teria compromissos relacionados ao assunto.

As mensagens indicam que uma reunião com o então ministro foi marcada para 2 de maio de 2024.

Banco foi reincluído após reunião com Lupi

Em 30 de abril, Mascarenhas informou a Vorcaro que havia recebido uma sinalização de bastidores sobre a possível inclusão do Master. A confirmação veio em 2 de maio, quando o diretor comunicou ao banqueiro que a secretaria responsável havia concluído que a instituição cumpria os requisitos para voltar à lista.

Minutos depois, o executivo enviou uma imagem do documento atualizado, com o nome do Banco Master destacado. Segundo o UOL, a atualização acrescentou apenas a instituição de Vorcaro à relação.

A autorização foi concedida com a previsão de instalação de um comitê de auditoria, um dos requisitos relacionados à habilitação da instituição. O Ministério da Previdência, porém, apresentou outra explicação para a decisão.

Em nota ao UOL, a pasta afirmou que a inclusão ocorreu depois de receber a informação de que o Banco Central havia autorizado a posse dos integrantes do comitê de auditoria do Master, em 29 de abril de 2024.

O ministério sustentou que não tem competência para autorizar ou credenciar instituições financeiras, cabendo-lhe verificar se elas cumprem as normas previstas. Também declarou ter adotado medidas de orientação, fiscalização e auditoria após identificar movimentações consideradas atípicas envolvendo recursos previdenciários e o Banco Master.

Mensagem de agradecimento foi enviada após publicação da lista

No dia seguinte à atualização, em 3 de maio de 2024, Mascarenhas enviou uma mensagem a ACM Neto agradecendo pelo apoio. O conteúdo foi compartilhado com Vorcaro, conforme os registros descritos pelo UOL.

A reportagem também informou que ACM Neto era apontado como um dos responsáveis por auxiliar na captação de recursos de fundos previdenciários estaduais para o banco.

Em uma proposta de delação premiada que não foi aceita pelas autoridades, Vorcaro teria afirmado que ACM Neto recebia uma comissão equivalente a 10% dos valores captados por institutos de previdência, por meio de pagamentos em dinheiro e contratos de consultoria que classificou como fictícios. O político nega as acusações.

A existência das mensagens e dos contatos relatados, por si só, não comprova a prática de irregularidades ou que a inclusão do banco tenha ocorrido por interferência política.

O que dizem ACM Neto e Carlos Lupi

Em nota ao UOL, ACM Neto negou ter atuado para viabilizar a inclusão do Banco Master na lista de instituições autorizadas a receber recursos previdenciários. Ele afirmou que não integrava o governo federal e que não tinha ingerência sobre decisões administrativas dessa natureza.

O político também contestou as acusações atribuídas a Vorcaro e criticou a divulgação de informações que, segundo ele, teriam origem em vazamentos seletivos e manipulados.

Carlos Lupi, por sua vez, negou ter interferido politicamente em benefício do banco. Ao UOL, afirmou que o assunto foi tratado pela equipe técnica do ministério e que a publicação da lista ocorreu com base em critérios técnicos. Ele não respondeu se recebeu diretores do Master para discutir a inclusão da instituição.

Fernando Mascarenhas, o Ministério da Previdência e a defesa de Daniel Vorcaro não se manifestaram sobre outros pontos questionados pela reportagem.

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