Por Heloísa Veasey Rodrigues- médica oncologista do Hopsital Albert Einstein
Durante décadas, o autoexame das mamas foi apresentado como uma estratégia importante para detectar casos de câncer nessa região. Com o avanço das pesquisas, no entanto, as principais organizações médicas passaram a não recomendá-lo como método formal de rastreamento para pessoas com risco considerável de desenvolver a doença.
Um dos motivos para isso é que grande parte dos estudos não encontrou uma redução significativa nas mortes por câncer de mama entre quem fazia o autoexame regularmente. Além disso, verificou-se que a identificação de nódulos pela própria pessoa fazia com que ela sentisse ansiedade e medo, levando-a realizar exames, consultas e até biópsias desnecessárias.
Essa mudança de recomendação, no entanto, não significa que seja indicado ignorar as próprias mamas. Pelo contrário: conhecer o que é habitual para cada pessoa continua sendo importante. A ideia agora é trocar a obrigação de realizar um exame minucioso e padronizado por uma atenção regular às mudanças do corpo, praticar a chamada autoconsciência mamária.
Conhecer o próprio corpo
Essa autoconsciência consiste em observar e tocar as mamas de maneira natural, suficiente para reconhecer o que costuma ser normal para cada pessoa. Não há necessidade de seguir uma técnica rígida nem de procurar um nódulo específico todos os meses.
As mamas podem mudar ao longo da vida e também em diferentes momentos do ciclo menstrual. Alterações hormonais podem deixá-las mais inchadas, sensíveis ou com áreas mais endurecidas. Gravidez, amamentação, menopausa e procedimentos anteriores, como cirurgia ou biópsia, também podem modificar sua aparência e textura.
Por isso, mais importante do que memorizar um padrão considerado universal é perceber quando algo mudou em relação ao que já se conhece como típico para o seu corpo.
Pontos de atenção
Algumas mudanças merecem ser observadas e comunicadas a um profissional de saúde, principalmente quando são novas, persistentes ou estão aumentando. Entre elas estão:
-Surgimento de um nódulo ou de uma área mais endurecida;
-Mudança recente no tamanho ou no formato de uma mama;
-Afundamento, ondulação ou enrugamento da pele;
-Vermelhidão, inchaço ou erupção persistente;
-Mudança na posição ou inversão do mamilo;
-Saída de secreção pelo mamilo, especialmente quando ocorre sem relação com gravidez ou amamentação;
-Feridas ou alterações que não cicatrizam;
-Dor localizada que persiste.
Nem toda alteração indica câncer. Nódulos e irregularidades são comuns e, em muitos casos, estão relacionados a alterações hormonais, cistos, fibroadenomas, lesões ou outras condições benignas, ou seja, não cancerosas.
Observação cotidiana das mamas
Mesmo sem fazer um autoexame formal, é possível incorporar a observação das mamas à rotina. Em frente ao espelho, preste atenção a aspectos como formato, pele e mamilos com os braços ao lado do corpo e depois levantados.
Também é possível tocar as mamas com as pontas dos dedos, de maneira suave e sem causar dor, cobrindo toda a região. O tecido mamário se estende para além da área do decote e pode alcançar a região da axila e próxima à clavícula. Algumas pessoas preferem fazer isso no banho; outras, deitadas.
Para quem ainda menstrua, observar as mamas alguns dias após o fim da menstruação pode facilitar a percepção, já que o inchaço e a sensibilidade provocados pelas alterações hormonais tendem a ser menores. Quem não menstrua pode escolher fazer esse acompanhamento regular em uma época específica do mês que seja fácil de lembrar.
E saiba que um nódulo nas mamas não significa que a pessoa tenha câncer. Como o tecido mamário naturalmente pode apresentar áreas mais densas ou irregulares, é comum encontrar alterações que não são malignas.
Ainda assim, qualquer mudança nova ou diferente do padrão deve ser avaliada. Se a pessoa menstrua, pode observar se uma alteração desaparece depois da menstruação, já que algumas mudanças estão relacionadas aos hormônios. Se o nódulo persistir por mais de um ciclo, aumentar ou se tornar mais evidente, é importante procurar atendimento.
Autoconhecimento não substitui acompanhamento médico
Conhecer as próprias mamas ajuda a perceber mudanças, mas não substitui os exames indicados para cada pessoa. Isso porque alguns cânceres são pequenos demais para serem identificados pelo toque. Por isso, alterações percebidas em casa devem ser avaliadas por um médico, que poderá fazer o exame físico das mamas e, quando necessário, solicitar exames de imagem.
A mamografia, que utiliza raios X para produzir imagens das mamas, é uma das principais ferramentas para detectar alterações antes que elas possam ser percebidas ao toque. O rastreamento costuma começar aos 40 anos para pessoas com risco habitual, mas pode ser indicado mais cedo para quem tem histórico familiar de câncer de mama. A frequência varia conforme a orientação médica e o perfil de cada pessoa, podendo ser semestral, anual ou a cada dois anos.
O ultrassom também pode ser utilizado, geralmente associado à mamografia, de acordo com idade, presença de gravidez ou amamentação. Em situações específicas, ainda existe a possibilidade de o médico solicitar exames complementares, como ressonância magnética ou biópsia.

