sábado, 12 setembro, 2026

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Ex-diretor do Banco Central sabia de fraude no Master desde 2024

Da Redação

O ex-diretor do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza, afastado sob suspeita de corrupção, afirmou em depoimento à Polícia Federal que tinha conhecimento de uma fraude de R$ 11,5 bilhões no Banco Master pelo menos um ano antes de o caso ser comunicado ao Ministério Público Federal. A informação é da reportagem de Natália Portinari, do Uol.

Segundo o servidor, quando recebeu do BTG Pactual, em dezembro de 2024, a informação sobre um possível rombo de R$ 32 bilhões no Master, ele já sabia, desde setembro daquele ano, de parte da fraude, relacionada a desvios em fundos.

Paulo Sérgio ocupava o cargo de chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup). O departamento, porém, só comunicou oficialmente a fraude ao Ministério Público Federal em 17 de novembro de 2025.

A denúncia serviu de base para a segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em 2026. A investigação envolve o uso de papéis do Besc, banco extinto de Santa Catarina, considerados sem valor, para desviar pelo menos R$ 11,5 bilhões do Banco Master.

Procurado para comentar o caso, o Banco Central não respondeu.

Divergências entre servidores

Segundo a reportagem, Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central, também prestou depoimento à Polícia Federal. Segundo ele, a demora do Desup em concluir as análises sobre as suspeitas de fraude no Master foi o motivo pelo qual decidiu transferir a tarefa para outro departamento da instituição.

No depoimento prestado em 10 de julho, Paulo Sérgio afirmou que só formalizou as suspeitas relacionadas aos fundos depois de ser provocado por Ailton de Aquino. Ele redigiu uma carta enviada ao Banco Master em 15 de setembro de 2024.

Para explicar a demora na comunicação das suspeitas, Paulo Sérgio atribuiu parte da responsabilidade a Ailton de Aquino. Segundo ele, o diretor de Fiscalização teria orientado que adotasse uma postura de espera em relação à fiscalização, o que, conforme mostrou o Valor Econômico, foi descrito como “jogar parado”.

Aquino, por sua vez, apresentou uma versão diferente à PF. Ele afirmou que Paulo Sérgio insistia que uma eventual fusão do Banco Master com o BRB resolveria os problemas encontrados nas carteiras de crédito e, por isso, demorava a concluir as análises.

“Surgem inevitavelmente as seguintes perguntas: por que o servidor Paulo Sérgio e o servidor Belline Santana foram tão resistentes em avançar no trabalho de campo sobre as carteiras de crédito, e por que Paulo Sérgio acreditava que as irregularidades identificadas seriam mera operação que seria eliminada numa eventual fusão do Master com o BRB”, afirmou Aquino.

Suspeita de propina

Paulo Sérgio e Belline Santana, ex-chefe do Desup, são suspeitos de terem recebido, respectivamente, R$ 4,5 milhões e R$ 13,5 milhões do Banco Master.

Em uma mensagem, o banqueiro Daniel Vorcaro teria orientado o cunhado, Fabiano Zettel, a tratar Paulo Sérgio bem, afirmando que ele seria um “anjo” em sua vida.

Belline e Paulo Sérgio também mantinham, junto com Daniel Vorcaro, um grupo chamado “Master”. Segundo as investigações, os integrantes trocavam estratégias para tentar evitar a liquidação do banco dias antes da primeira prisão de Vorcaro.

Esteves, Galípolo e Campos Neto são convocados

Após o depoimento de Paulo Sérgio, a Polícia Federal convocou o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o ex-presidente da instituição, Roberto Campos Neto, para prestar depoimento como testemunhas.

O objetivo é esclarecer a cronologia dos fatos relatados por Ailton de Aquino e Paulo Sérgio, além de identificar possíveis falhas na fiscalização do Banco Master.

O inquérito que apura suspeitas de corrupção no Banco Central é considerado uma das investigações mais avançadas da Polícia Federal. O caso reúne documentos sobre as comunicações mantidas pelos servidores afastados com Daniel Vorcaro, além de registros dos repasses financeiros investigados.

Outro lado

Procurada pelo UOL, a defesa de Belline Santana, representada pelo advogado Leonardo Palazzi, afirmou que os depoimentos já colhidos afastariam qualquer indício de irregularidade.

“Embora tenha sido afastado o sigilo dos procedimentos relacionados ao Banco Master, permanece evidente uma exposição midiática (seletiva e fragmentada) dos elementos constantes das investigações, especialmente no que diz respeito às Informações de Polícia Judiciária -as fatídicas IPJs produzidas pela Polícia Federal.”

“Infelizmente, a repercussão parcial desses elementos acaba por desviar o foco de relações e responsabilidades que, segundo os desdobramentos das investigações já conhecidos, alcançam outros níveis superiores, em diversas instâncias.”

“A defesa reitera, portanto, que o Sr. Belline Santana sempre exerceu suas funções como servidor de carreira do BCB dentro dos estritos limites de suas atribuições, e confia que a análise integral de todos os elementos os quais se retirou o sigilo sejam apreciados com a necessária objetividade, sem conclusões baseadas em recortes ou interpretações descontextualizadas e, em especial, contrariando os próprios desdobramentos da Pet 15504, o que aparentemente é orientado por finalidades escusas.”

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