Da Redação
Emails obtidos pela Polícia Federal (PF) durante a Operação Sem Desconto, que investiga descontos associativos indevidos em benefícios de aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), indicam que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, estava associado a uma conta no banco Santander relacionada ao advogado Willer Tomaz. Ambos negam a existência de vínculo financeiro entre eles. A reportagem é de Fabio Serapião, do site UOL.
Tomaz foi alvo de mandado de busca e apreensão em agosto, sob suspeita de lavar dinheiro supostamente desviado de aposentadorias para o senador Weverton Rocha (PDT-MA), também investigado no caso. O advogado já havia sido preso em 2017, em um inquérito sobre propina paga pela JBS, mas a denúncia foi posteriormente rejeitada por falta de provas.
Durante a investigação sobre as fraudes no INSS, a PF acessou documentos armazenados em uma conta do iCloud, serviço de armazenamento em nuvem da Apple. Entre os arquivos, foram encontrados emails trocados entre o escritório de advocacia de Tomaz e o Santander.
Emails mencionam conta identificada com nome do senador
Aegundo a reportagem, uma das trocas de mensagens tratava de uma conta relacionada à Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, da qual Willer Tomaz é sócio. A firma está entre as empresas do advogado citadas pela PF na investigação sobre o suposto esquema de lavagem de dinheiro.
Em email datado de 22 de maio de 2025, Fayla Zulmira Menezes, funcionária do escritório de Tomaz, solicitou ao Santander a retirada, do chamado “usuário master” ligado ao advogado, da conta identificada como “3219********29 – Flávio Bolsonaro”. Os números foram suprimidos por questões de privacidade.
No mesmo dia, o banco respondeu confirmando que a conta associada ao nome do senador havia sido excluída. A movimentação ocorreu cerca de um mês após a deflagração da primeira fase da Operação Sem Desconto, que apura desvios estimados em até R$ 6,3 bilhões por meio de descontos associativos indevidos em aposentadorias.
Segundo as informações sobre o sistema bancário do Santander, contas de pessoas jurídicas podem ter mais de um usuário autorizado. O perfil “master” permite executar todas as operações, enquanto os usuários “secundários” têm acesso limitado às funções autorizadas.
Na prática, essa estrutura possibilita que diferentes pessoas tenham permissões para movimentar recursos de uma conta empresarial. Para a PF, o email indica que usuários, entre eles um identificado como Flávio Bolsonaro, podiam administrar uma conta empresarial ligada à estrutura de Willer Tomaz.
Ao analisar a mensagem, a Polícia Federal registrou:
“A conta identificada como Flávio Bolsonaro estava, portanto, vinculada ao mesmo contato de usuário master no qual o escritório de Willer Tomaz pedia inclusão da Alcazar, ao lado da conta pessoal do próprio Willer, até aquela data.”
No relatório sobre os emails e outros documentos encontrados no iCloud do advogado, a PF apontou a necessidade de aprofundar as investigações sobre as movimentações financeiras de Tomaz e de suas empresas, além de possíveis relações com agentes públicos, incluindo Flávio Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam relação financeira
De acordo com o UOL, por nota, Flávio Bolsonaro afirmou que nunca manteve conta bancária cujo usuário master fosse Willer Tomaz ou qualquer uma das empresas do advogado.
“nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”. Segundo ele, “toda e qualquer afirmação nesse sentido é falsa”.
A assessoria do senador também negou que ele tenha criado um usuário no sistema Rede Loto e classificou as informações como tentativas de disseminar notícias falsas durante o período eleitoral. Afirmou ainda que os envolvidos poderão ser responsabilizados criminalmente.
Willer Tomaz, por sua vez, declarou que a conta mencionada pela reportagem nunca lhe pertenceu e que jamais criou um usuário em nome do senador em qualquer plataforma.
“Entre os dois há apenas amizade, sem relação comercial ou financeira.”
O advogado também afirmou que as acusações são baseadas em ilações sem comprovação e que adotará medidas judiciais contra quem divulgar informações que considere falsas ou obtidas ilicitamente.
Relação pessoal e viagens ao exterior
Flávio Bolsonaro já reconheceu publicamente ter uma relação de “amizade legítima” com Willer Tomaz. Os dois viajaram juntos em um safári na África em março de 2025.
O senador também utilizou um jatinho do advogado em janeiro daquele ano e um apartamento de Tomaz em São Paulo durante a campanha presidencial, segundo as informações apresentadas na reportagem original.
A PF identificou ainda pagamentos de voos em jatos executivos para Flávio e familiares por duas empresas ligadas ao advogado no exterior: a Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira, e a Cathedral Holdings, também em Portugal. Tomaz afirma ser o único sócio da Alcazar e possuir 24% da Cathedral.
Segundo a investigação, a Alcazar custeou voos realizados em um Legacy 650, de prefixo PP-NLR, do qual possui um terço. Outra parte da aeronave pertencia à Prime You, empresa que teve como sócio Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso desde março de 2026.
Nesse avião, Flávio, a mulher, as duas filhas e Willer Tomaz viajaram de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, a Brasília, em janeiro de 2025. O advogado afirmou que pagou o trecho com horas correspondentes à sua própria cota e que os demais passageiros eram convidados.
A Cathedral, segundo a PF, pagou viagens realizadas pela NetJets, empresa que comercializa cotas e pacotes de horas de voo em jatos executivos. As viagens integram um conjunto de pelo menos cinco deslocamentos internacionais de Flávio e Tomaz no primeiro semestre de 2025, conforme informações publicadas pelo jornal O Globo.
Em abril, os dois teriam viajado de Lisboa a Nice, no sul da França. Em maio, acompanhados das famílias, fizeram trajetos de Cascais, próximo a Lisboa, para Nice e, depois, de Nice a Paris.
Operação Sem Desconto e investigação sobre Weverton Rocha
O senador Weverton Rocha foi um dos elementos que levaram Willer Tomaz ao foco da investigação da PF. A partir das apurações, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou buscas no escritório do advogado em razão de sua relação com o parlamentar maranhense.
Segundo a PF, empresas e escritórios ligados a Tomaz funcionariam como um “verdadeiro hub financeiro, patrimonial e logístico” colocado à disposição de beneficiários do esquema investigado, entre eles Weverton Rocha.
No caso de Flávio Bolsonaro, os emails sobre a conta no Santander, os voos custeados por empresas ligadas ao advogado e a relação pessoal entre os dois integram uma linha de investigação sobre possíveis benefícios decorrentes dessa estrutura. Esses elementos, por si só, não comprovam a participação do senador em irregularidades.
Em relação a Weverton, a PF descreveu Tomaz como um “personagem de sustentação, associado a empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros e interlocutores políticos”.
Fayla Zulmira Menezes, funcionária que enviou o email ao Santander sobre a conta identificada com o nome de Flávio, também aparece na investigação sobre Weverton. De acordo com a PF, ela seria responsável por operar a contabilidade paralela do senador maranhense dentro do escritório de Tomaz.
Mensagens analisadas pelos investigadores detalhariam pagamentos milionários de contas de Weverton, incluindo compras de imóveis e repasses de dinheiro em espécie.
Outro vínculo citado na investigação
Flávio Bolsonaro também é sócio da Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, localizada em Brasília. Conforme registros da Receita Federal mencionados na reportagem original, o escritório é administrado por Letícia Caetano dos Reis.
O irmão dela, Alexandre Caetano dos Reis, foi alvo da PF por prestar serviços de contabilidade a Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, apontado como um dos principais operadores financeiros do esquema de descontos indevidos contra aposentados.
Em entrevista à Agência Pública, em 2022, Letícia afirmou que havia sido apresentada a Flávio Bolsonaro pelo advogado Willer Tomaz.
O que diz Flávio Bolsonaro
A assessoria de imprensa do senador enviou ao UOL a seguinte nota:
“O senador nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas. Toda e qualquer afirmação nesse sentido é falsa. Igualmente falsa é a alegação de que o senador teria criado um usuário no sistema Rede Loto. Isso jamais ocorreu.
Essas insinuações não surgem por acaso. Aparecem agora, em pleno período eleitoral, com um propósito único: espalhar fake news. É importante ressaltar que a divulgação de fake news é crime eleitoral. Os envolvidos pela divulgação de notícias falsas serão responsabilizados criminalmente.”
O que diz Willer Tomaz
A equipe do advogado enviou a seguinte manifestação:
“O advogado Willer Tomaz repudia as informações falsas apresentadas. A conta bancária mencionada nunca lhe pertenceu. Ele jamais criou usuário em nome do senador Flávio Bolsonaro em qualquer plataforma.
Entre os dois há apenas amizade, sem relação comercial ou financeira. Atribuir-lhe condutas inexistentes, com base em ilações sem comprovação, é uma grave irresponsabilidade.
Em plena campanha eleitoral, fabricam-se mentiras com o evidente propósito de interferir no resultado do pleito.
O advogado adotará todas as medidas judiciais cabíveis contra aqueles que, deliberadamente, divulgarem acusações falsas ou utilizarem informações obtidas ilicitamente para atingir sua honra e reputação.”

