Da Redação
O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) participou, nesta sexta-feira (28), de uma sabatina no Jornal Nacional, da Globo, e teve diversas declarações classificadas como falsas, enganosas ou exageradas pelo UOL Confere. A informação é do site UOL.
Durante a entrevista, Flávio falou sobre o filme “Dark Horse”, a homenagem concedida ao ex-policial Adriano da Nóbrega, mudanças climáticas, urnas eletrônicas, cargos comissionados, os atos de 8 de Janeiro, Pix, CPMI do Banco Master e juros.
Em um dos momentos da entrevista, o candidato afirmou que as informações sobre o filme “Dark Horse”, uma cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro, já seriam públicas. Segundo a checagem, a afirmação é falsa.
Filme “Dark Horse”
“As informações que importam [sobre o filme ‘Dark Horse’] já estão públicas.”
FALSO. De acordo com o UOL Confere, não foi tornada pública nenhuma prestação de contas sobre a cinebiografia de Jair Bolsonaro para a qual Flávio pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Um inquérito da Polícia Civil de São Paulo apura se recursos destinados ao filme foram desviados de um contrato entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Ferreira da Gama, dona da produtora Go Up Entertainment, responsável pela realização de “Dark Horse”.
Uma investigação da Polícia Federal também apura se emendas parlamentares foram utilizadas para custear o filme.
As informações publicadas pela imprensa sobre o custo da produção e seu financiamento têm como origem uma perícia particular contratada pela defesa da produtora no âmbito do inquérito da Polícia Civil de São Paulo.
O laudo sustenta que o filme foi financiado com recursos privados. A perícia, porém, não teria identificado a origem dos recursos repassados pelo fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos, e para onde teria sido destinado o dinheiro de Vorcaro para a produção.
Um dos sócios do fundo é Paulo Calixto, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.
Homenagem a Adriano da Nóbrega
Flávio também foi questionado sobre a homenagem concedida ao ex-policial Adriano da Nóbrega, apontado como integrante de milícia no Rio de Janeiro.
“Essa homenagem [ao Adriano da Nóbrega] foi feita há mais de 20 anos (….), não tinha nada contra ele nesta época. Ele estava sendo falsamente acusado de ter cometido homicídio e, na verdade, foi uma troca de tiros com um traficante.”
A declaração foi classificada como enganosa.
Segundo a checagem, Adriano já era investigado quando recebeu a Medalha Tiradentes, concedida por Flávio em 2005. Naquele período, ele estava preso acusado do assassinato de Leandro dos Santos Silva, guardador de carros.
O crime ocorreu em novembro de 2003, em Parada de Lucas, na zona norte do Rio de Janeiro. Silva havia denunciado que tinha sido torturado e extorquido por um grupo de policiais comandados por Adriano.
Oito agentes do 16º BPM (Olaria) foram presos em flagrante, entre eles Adriano. Conforme a investigação, depois da morte do guardador, os policiais teriam alterado a cena do crime para simular um confronto.
Adriano chegou a ser condenado em primeira instância em 2005, mas o júri foi posteriormente anulado. Em novo julgamento, realizado em janeiro de 2007, ele foi absolvido.
A checagem também apontou que não existem evidências de que Leandro dos Santos Silva fosse traficante. Ele trabalhava como funcionário da CET-Rio.
Apontado como um dos maiores matadores de aluguel do Rio, Adriano nunca foi condenado por homicídio. Após sua morte, em 2020, uma escuta de conversa de sua irmã levantou suspeitas sobre a atuação da Justiça em processos envolvendo o miliciano.
Tatiana Magalhães da Nóbrega afirmou que “o jogo do bicho pagou a absolvição dele”. Adriano também foi absolvido em outro processo por homicídio.
Aquecimento global
Durante a entrevista, Flávio Bolsonaro também questionou a influência humana sobre o aquecimento global.
“Acho que tem eventos climáticos extremos. Tem épocas cíclicas que fazem mais calor, tem épocas que fazem mais frio, que chovem mais, e não acho que isso [aquecimento global] tenha a ver diretamente só com a influência do ser humano”.
A afirmação foi classificada como falsa.
Segundo o relatório de 2023 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), existe consenso científico de que a atividade humana é responsável pelo aquecimento global observado, especialmente por meio das emissões de gases de efeito estufa.
Embora tenham ocorrido períodos naturais de aquecimento e resfriamento do planeta, a atividade humana vem intensificando a mudança climática. Entre as consequências apontadas estão o aumento das temperaturas, o recuo das geleiras, o crescimento de desastres relacionados ao clima e a elevação do nível do mar.
Urnas eletrônicas
Flávio também reconheceu que havia feito uma afirmação equivocada sobre a origem das urnas eletrônicas brasileiras, mas negou ter colocado em dúvida o processo eleitoral.
“Realmente eu disse que a empresa que fazia, que fez as urnas eletrônicas, ou parte delas no Brasil, era uma empresa venezuelana. Falei errado. (…) Então, tirando essa parte que de fato eu falei equivocadamente, fui bem claro em dizer que jamais questionei a questão do processo eleitoral.”
A declaração foi classificada como falsa.
Embora tenha admitido o erro ao relacionar as urnas brasileiras à empresa venezuelana Smartmatic, Flávio já havia feito outras declarações questionando o sistema eleitoral brasileiro.
Em setembro de 2018, afirmou que “é impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso”. Em 2 de outubro daquele ano, cinco dias antes do primeiro turno, declarou ao jornal O Globo que “nós temos o direito de desconfiar da urna eletrônica”.
Cargos comissionados
Outra afirmação classificada como falsa envolveu o número de cargos em comissão durante o governo de Jair Bolsonaro.
“O presidente Bolsonaro, em 2019, cortou 20 mil cargos em comissão.”
Segundo os dados citados pelo UOL Confere, a gestão do ex-presidente não reduziu o número de cargos comissionados ao final do mandato.
Entre 2019 e 2022, o número teria aumentado de 31,8 mil para 46,2 mil. A quantidade de vagas permaneceu estável nos três primeiros anos, enquanto 13,4 mil cargos foram criados somente em 2022.
Atos de 8 de Janeiro
Flávio também afirmou que os participantes dos atos de 8 de Janeiro não tinham relação entre si e que nenhuma arma havia sido encontrada durante a invasão das sedes dos Três Poderes.
“As pessoas que estavam naquele 8 de janeiro nem se conheciam. Nunca se viram na vida. Não foi encontrada uma arma no 8 de Janeiro.”
A declaração foi considerada falsa.
As investigações dos atos de 8 de Janeiro apresentaram elementos sobre a organização interna dos participantes nos acampamentos e identificaram o uso de armas brancas durante a invasão da Praça dos Três Poderes.
Segundo a Procuradoria-Geral da República, o grupo era organizado, tinha tarefas definidas e teria incitado outras pessoas à prática de crimes, o que configuraria associação criminosa.
Relatório da Secretaria de Polícia do Senado Federal identificou ainda o uso de estilingues, pontas de aço, machados, facas e porretes pelos manifestantes.
Pix
O candidato também atribuiu ao governo de Jair Bolsonaro a criação do Pix e a ausência de cobrança de taxas pelo sistema.
“O Pix é sagrado, o PIix é do brasileiro, feito na gestão do presidente Bolsonaro, não tem taxa no Pix, porque o Bolsonaro exigiu que não tivesse.”
A afirmação foi classificada como falsa.
O Banco Central iniciou o processo de criação do sistema de pagamentos instantâneos em 2018, durante o governo Michel Temer (MDB). Naquele período, o presidente do BC era o economista Ilan Goldfajn.
Em maio de 2018, cinco meses antes da eleição de Bolsonaro, o Banco Central criou o Grupo de Trabalho “Pagamentos Instantâneos”, responsável por elaborar as especificações do sistema que posteriormente se tornaria o Pix.
Em outubro de 2020, quando começou o cadastro das chaves Pix, Bolsonaro demonstrou desconhecimento sobre a tecnologia ao ser parabenizado por um apoiador. Na ocasião, confundiu o assunto com uma questão relacionada à aviação civil e afirmou que “não havia tomado conhecimento” da medida do Banco Central.
Segundo a checagem, não há evidências de que Bolsonaro tenha exigido que não houvesse cobrança de taxas, uma vez que o sistema foi desenvolvido por técnicos da autarquia.
CPMI do Banco Master
Flávio afirmou ainda que havia assinado a CPMI do Banco Master e pedido sua instalação.
“Já assinei a CPMI [do Banco Master] e pedi que ela acontecesse.”
A declaração foi classificada como enganosa.
A fala pode transmitir a impressão de que houve apenas um pedido para abertura da CPMI. No total, porém, cinco requerimentos estavam disponíveis para integrantes do Senado.
Flávio assinou dois deles, apresentados pelo deputado Carlos Jordy (PL-RJ) e pelo senador Carlos Viana (PSD-MG).
O candidato não apoiou o requerimento apresentado pelo senador Eduardo Girão (Novo-CE), aliado de seu campo político, nem duas iniciativas governistas: uma do senador Rogério Carvalho (PT-SE) e outra elaborada pelas deputadas Heloísa Helena (Rede-RJ) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS).
Juros e impacto no Orçamento
Flávio também relacionou a redução da taxa básica de juros a uma economia de cerca de R$ 90 bilhões no Orçamento a cada ponto percentual.
“Cada 1% de taxa de juro a menos que nós pagamos, é cerca de R$ 90 bilhões que abre do Orçamento.”
A declaração foi classificada como exagerada.
Segundo dados divulgados pelo Banco Central em julho, uma redução de um ponto percentual na taxa Selic representa impacto de R$ 66,1 bilhões na Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) e de R$ 60,6 bilhões na Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG).
Os dois valores são inferiores aos R$ 90 bilhões mencionados pelo candidato.
A sabatina de Flávio Bolsonaro ocorreu durante a cobertura eleitoral do Jornal Nacional. A entrevista abordou temas relacionados ao governo de Jair Bolsonaro, às posições do candidato sobre economia, eleições, meio ambiente e segurança pública, além de episódios políticos e judiciais envolvendo seu grupo político.
A checagem analisada nesta reportagem foi realizada pelo UOL Confere e classificou as declarações segundo a avaliação das informações apresentadas pelo candidato durante a entrevista.

