Da Redação
O vereador Hamilton Assis (PSOL) questionou o que considera um tratamento desigual do Estado no combate ao tráfico de drogas em Salvador após a Operação Iceberg, que prendeu investigados suspeitos de integrar uma rede de tráfico voltada a consumidores de alto poder aquisitivo. Para o parlamentar, a diferença na atuação das forças de segurança em áreas nobres e comunidades periféricas deve ser discutida sob a perspectiva do racismo institucional.
Segundo a Polícia Civil, a operação identificou fornecedores, distribuidores, movimentações financeiras e suspeitas de lavagem de dinheiro. Um dos principais investigados teria movimentado mais de R$ 9,6 milhões em cinco anos. A Justiça também autorizou o bloqueio de até R$ 200 milhões em bens e recursos relacionados aos investigados.
A operação não registrou mortes. Entre os consumidores apontados na investigação estão médicos, advogados, empresários e outros profissionais, segundo as autoridades.
Vereador compara atuação em diferentes territórios
Hamilton Assis citou levantamento do Instituto Fogo Cruzado divulgado na segunda-feira (21). Segundo os dados, Salvador e Região Metropolitana registraram 24 chacinas entre 1º de janeiro e 18 de setembro de 2026.
Do total, 23 ocorreram durante ações ou operações policiais, concentrando 85 vítimas. No período, foram 88 mortos nas 24 chacinas registradas.
O episódio mais recente mencionado no levantamento ocorreu em 15 de setembro, em Cajazeiras II, na periferia de Salvador. Nove homens foram mortos após uma ação policial seguida de perseguição, segundo os dados citados.
Para Hamilton, a comparação entre os casos evidencia, na avaliação dele, uma diferença na forma como o Estado atua conforme o território e o perfil social das pessoas investigadas.
“Estamos diante de uma pergunta que o Estado precisa responder: por que existe tanta inteligência para investigar o dinheiro, rastrear as transações e chegar aos responsáveis quando o tráfico atende consumidores de áreas nobres, mas nas comunidades negras e periféricas a resposta tantas vezes é o confronto e a morte? Com esse protocolo de atuação distinta a depender do endereço e cor da pele fica cada dia mais difícil para o governo esconder que a sua política de guerra às drogas é na verdade o plano de execução para o genocídio da juventude negra”, questiona Hamilton.
Crítica ao tratamento dado aos investigados
O vereador também criticou a forma como os suspeitos da Operação Iceberg foram apresentados na cobertura jornalística. Segundo Hamilton, referências a imóveis de alto padrão, carros de luxo e profissões socialmente valorizadas demonstrariam como raça e classe podem influenciar a percepção sobre quem é considerado suspeito.
“Quando olham para uma pessoa branca, bem vestida, moradora de condomínio de luxo e dentro de um carro caro, a reação é de surpresa: ‘ninguém imaginaria que pudesse ser bandido’. Mas quando olham para um jovem negro da periferia, muitas vezes a suspeita vem antes da investigação. Esse é o problema que precisamos enfrentar: o racismo institucional produzido também pelos operadores do Estado”, afirma.
Hamilton defendeu que mecanismos de inteligência, investigação financeira e responsabilização sejam utilizados contra organizações criminosas independentemente do território onde atuam ou da condição social dos suspeitos.
“Nós não somos contra o combate ao crime organizado ou tráfico de drogas. Somos contra uma política de segurança que tenha dois protocolos baseados em eugenia, na política de execução da população negra. A atuação com investigação e inteligência para uns e tiro, operação e morte para outros é a prova do que denunciamos há décadas. Queremos que nossas comunidades negras sejam tratadas com o mesmo respeito e a mesma inteligência investigativa. A juventude negra não pode ser considerada criminosa antes mesmo de qualquer prova”, declara.
Segurança pública e investigação financeira
O parlamentar afirmou ainda que o combate ao crime organizado deve alcançar toda a cadeia do tráfico, incluindo fornecedores, distribuidores, operadores financeiros e responsáveis pela lavagem de dinheiro.
“Segurança pública não pode significar escolher quem merece viver. É preciso investigar, prender, bloquear patrimônio e desmontar organizações criminosas. Mas é preciso fazer isso preservando vidas. Quando a cor da pele e o CEP determinam a forma como o Estado trata uma pessoa, estamos diante de racismo institucional”.
O levantamento do Instituto Fogo Cruzado também registrou, em 2026, 500 tiroteios durante ações ou operações policiais em Salvador e na Região Metropolitana até o período considerado, com 461 pessoas baleadas, das quais 365 morreram e 96 ficaram feridas.

