sexta-feira, 16 outubro, 2026

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Mensagens revelam que Rueda e ACM Neto levaram o Banco Master a fundos de previdência

Da Redação

Foto: Reprodução

Mensagens encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelam bastidores da atuação de Antônio Rueda (E), presidente nacional do União Brasil, e de ACM Neto, vice-presidente da legenda, em articulações para captar recursos de institutos de previdência de servidores públicos para a instituição financeira.

As conversas, extraídas pela Polícia Federal (PF), também registram pagamentos a escritórios de advocacia e a uma empresa de consultoria ligados aos dois políticos. A informação é da reportagem de Fábio Serapião do site UOL.

Segundo informações divulgadas pelo UOL, Vorcaro afirmou, em uma proposta de delação premiada, que Rueda e ACM Neto teriam atuado em favor do banco em troca de comissões equivalentes a 10% dos valores aplicados por fundos estaduais de aposentadoria. A proposta de colaboração, no entanto, foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

O Banco Master repassou R$ 6,4 milhões a escritórios de advocacia de Rueda e R$ 5,4 milhões a uma empresa de consultoria de ACM Neto. As mensagens analisadas pela PF indicam que os dirigentes políticos teriam ajudado a abrir portas para o banco em diferentes estados, e que o sucesso das captações era atribuído à atuação deles.

Com base nesse material, a Polícia Federal solicitou mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos dois políticos. A operação, entretanto, não chegou a ser autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Procurado, ACM Neto classificou os vazamentos como “seletivos, manipulados e fora de contexto” e alegou que haveria uma tentativa do governo federal de provocar desgaste político. Rueda, por sua vez, afirmou que sua relação com o Banco Master era “eminentemente profissional” e declarou que os serviços advocatícios foram prestados com emissão de notas fiscais e recolhimento de impostos.

Mensagens registram aproximação entre Rueda e Vorcaro

As conversas entre Rueda e Vorcaro começaram em novembro de 2023. No dia 12 daquele mês, Fernando Mascarenhas, diretor comercial do Banco Master, avisou ao banqueiro que havia recebido uma ligação do político. Na mensagem, escreveu: “Rueda me ligou aqui, vai tá no banco amanhã? Good news”.

Vorcaro marcou um encontro com Rueda para o dia seguinte. Dois dias depois, Mascarenhas pediu autorização para viajar a estados onde o banco pretendia captar recursos de institutos de previdência.

“Aquele nosso amigo marcou de irmos segunda final da tarde em Porto Alegre e terça em Rondônia e Amazonas! Posso confirmar?”, escreveu o diretor comercial. Vorcaro respondeu que organizaria a logística.

Segundo as mensagens, a viagem ocorreu em um jato do ex-banqueiro. A lista de passageiros encaminhada a Vorcaro incluía Mascarenhas, Rueda e dois intermediários identificados como Ricardo e Raphael. O roteiro previa reuniões em Rondônia e Manaus.

Na noite de 21 de novembro, Mascarenhas comemorou a perspectiva de captação de recursos. “Irmão, o negócio vai ficar gigante, nosso amigo até final do ano resolve 1,2 b”, escreveu. Vorcaro respondeu: “Foguete”.

Procurado, Rueda negou ter participado da viagem e afirmou que estava em São Paulo naquele dia.

Mensagens sobre operações no Amapá

Em abril de 2024, as conversas passaram a registrar avanços na captação de recursos do instituto de previdência dos servidores do Amapá. “Amapá, confirmado 400”, escreveu Mascarenhas, em referência à captação de R$ 400 milhões. Vorcaro respondeu: “Quero ver nosso amigo apertar o enter”.

A aprovação ocorreu em 12 de julho de 2024. Na mesma data, porém, uma reportagem revelou uma crise na Caixa Asset envolvendo títulos do Banco Master.

Diante da repercussão, o tesoureiro do banco, Alberto Felix, informou a Vorcaro que a operação não seria concluída naquele dia “por causa da notícia da CEF”. Em seguida, escreveu: “A reunião lá do Amapá está acontecendo. Mas o Rueda que disse que ia segurar as operações”.

Às 11h45, Rueda enviou uma mensagem a Vorcaro: “Apaga essas mensagens”. Segundo o material divulgado, o dirigente havia apagado dez mensagens consecutivas da conversa. Cerca de uma hora depois, Mascarenhas informou: “Aprovado 200 M agora no Amapá. Nesse minuto”.

Ainda naquele dia, o diretor comercial enviou a Vorcaro uma relação de captações em andamento: “400 Amapá, 350 RJ, 250 Amazonas, 160 Campos dos Goytacazes, 500 Maricá, 100 BH, 200 Alagoas”.

Em julho, Alberto Felix também questionou Vorcaro sobre a comissão da “consultoria do Ricardo/Raphael” relacionada à operação no Amapá. “Deu 8,9 mm. Já pediram para pagar”, escreveu. No dia seguinte, o banqueiro autorizou a emissão de uma nota de R$ 8 milhões.

A consultoria é atribuída a Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido como Ricardo Gordo, apontado pela PF como lobista de Vorcaro no Rioprevidência. Raphael é o intermediário que, segundo as mensagens, relatou a Felix que Rueda “ia segurar as operações”.

Rueda nega ter participado das negociações. Em 1º de agosto, a tesouraria do banco registrou: “Pagamos 11 mm contas a pagar, comissão Amapá”. Naquele momento, a Amapá Previdência já havia transferido R$ 300 milhões ao Banco Master.

Comissão de 10% e captações em outros estados

As mensagens indicam que a consultoria de Ricardo Gordo trabalhava com uma comissão de 10% nas operações com o Banco Master. O percentual coincide com aquele que Vorcaro afirmou ter acertado com Rueda e ACM Neto, segundo a proposta de delação premiada.

Entretanto, as conversas divulgadas não demonstram pagamentos diretos de comissões aos dois dirigentes do União Brasil.

Em junho de 2024, Mascarenhas informou a Vorcaro que haveria uma captação de R$ 50 milhões no Amazonas: “Amazonprev 50 M líquida amanhã”.

Em julho de 2025, o lobista Julio Cezar Avelino, que buscava aplicações de fundos de previdência para o banco, escreveu a Vorcaro: “No Amazonas vai dar certo, porque Rondônia é o mesmo grupo de influência”. O banqueiro respondeu: “Lá é sócio do Rueda”.

O executivo Luiz Rennó também mencionou o dirigente do União Brasil ao tratar de articulações no Rio de Janeiro. Em uma mensagem a Vorcaro, escreveu que precisavam conversar sobre “assunto RJ, caixa Rueda”. Em outra, afirmou: “Rueda seria nosso cara! Precisaria ter entrado no banco mais cedo! Ele tem alguns estados”.

 

Jatos, hospedagem e contratos de advocacia

As mensagens também registram ofertas de benefícios de Vorcaro a Rueda. Em dezembro de 2023, o banqueiro colocou seus jatos executivos à disposição do político e escreveu: “Usa como seu”. Em maio de 2024, enviou um avião para transportar a família de Rueda à Fórmula 1, em Miami.

Em março de 2024, quando Rueda pediu “cuida de mim”, Vorcaro respondeu: “Arrumei o apto? arrumei o Rosewood”, em referência a um dos hotéis de luxo de São Paulo.

Em agosto de 2024, o departamento jurídico do Banco Master apresentou a Vorcaro a contratação do escritório Rueda & Rueda Advogados para atuar em quatro ações, pelo valor total de R$ 15,4 milhões.

As conversas também apontam uma aproximação entre Vorcaro e o Banco de Brasília (BRB), com participação de Rueda na abertura de canais de contato. Em julho de 2024, o banqueiro esteve na casa do dirigente, em Brasília, e depois enviou a primeira mensagem ao então presidente do banco público, Paulo Henrique Costa.

Dois dias depois, Rueda escreveu ao banqueiro: “PH precisando falar c vc”.

Em nota, Rueda reiterou que sua relação com o Banco Master era “eminentemente profissional”. Também lamentou “o uso político de trechos isolados de informações que deveriam estar sob sigilo, mas que foram retirados de contexto com o propósito de criar suspeitas infundadas e atingir sua reputação”.

O dirigente acrescentou que “adotará as medidas cabíveis para resguardar sua honra e sua imagem diante da divulgação de acusações falsas e distorções dos fatos”.

ACM Neto aparece em conversas sobre articulações políticas

As mensagens também mostram ACM Neto em contato com Vorcaro. Em setembro de 2024, o ex-prefeito de Salvador e Rueda passaram um fim de semana na casa do banqueiro, em Trancoso, no litoral sul da Bahia. O deputado federal Elmar Nascimento (União Brasil-BA) também estava presente.

No mês seguinte, ACM Neto pediu a Vorcaro uma conversa com a participação dos três: “eu, você e Rueda”. O encontro ocorreu em uma sala privada de uma charutaria em São Paulo.

Nove dias depois, ACM Neto enviou outra mensagem ao banqueiro: “As coisas em Brasília estão consolidadas e, felizmente, saiu tudo como desejávamos na política”.

Na semana seguinte, Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, avisou que estava sendo procurado. “Marcos Moura (ACM) me chamando. O que eu faço?”, perguntou. Vorcaro respondeu: “Pega com Gustavo / E Minas”.

Marcos Moura, conhecido como “rei do lixo”, é um empresário investigado por suspeita de desvios em licitações controladas por políticos do União Brasil e integrante da Executiva da legenda. Já “Minas” é o apelido de Antônio Carlos Freixo Júnior, apontado na proposta de delação como responsável por gerar dinheiro em espécie.

Na proposta de colaboração, rejeitada pela PF e pela PGR, Vorcaro afirmou que ACM Neto recebia dinheiro em espécie proveniente de recursos gerados por Freixo. As mensagens divulgadas, porém, não esclarecem o que teria sido entregue nem os valores envolvidos.

O material também aponta que ACM Neto teria atuado para facilitar o acesso do Banco Master aos institutos de previdência. Segundo o UOL, o banco atribui ao dirigente a inclusão da instituição financeira em uma lista do Ministério da Previdência.

O ex-prefeito de Salvador negou interferência. Em manifestação, declarou que “nunca teve qualquer tipo de participação no governo federal, o que afasta a possibilidade de interferência em decisões administrativas do Ministério da Previdência e da inclusão do Banco Master na lista exaustiva de instituições elegíveis para receber recursos de RPPS”.

ACM Neto também afirmou que jamais atuou para que institutos de previdência investissem recursos no Banco Master, incluindo a Amapá Previdência.

Sobre Fabiano Zettel, declarou que “sequer conhece Fabiano Zettel, razão pela qual considera absurda e criminosa qualquer ilação feita na tentativa de associar seu nome a supostos diálogos dos quais não participou e com alguém que jamais teve contato”.

O dirigente afirmou ainda que todos os valores recebidos do Banco Master decorreram de serviços de consultoria efetivamente prestados, por meio de contrato mensal iniciado em janeiro de 2023, com emissão de notas fiscais e recolhimento de impostos.

Investigações sobre fundos de previdência

Na proposta de delação, Vorcaro atribuiu a Rueda articulações para aproximar o Banco Master de institutos de previdência do Rio de Janeiro, do Amapá e do Amazonas, além da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae).

Os três estados tiveram órgãos previdenciários envolvidos em desdobramentos da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes relacionadas ao Banco Master.

Em fevereiro de 2026, a Polícia Federal prendeu o ex-presidente do Rioprevidência Deivis Marcon Antunes. Segundo a investigação, ele teria sido indicado ao cargo por Rueda, em articulação com o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL). De acordo com a PF, o órgão destinou cerca de R$ 2 bilhões ao Banco Master.

No Amapá, um aporte de R$ 400 milhões foi aprovado por um comitê presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha do senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que o indicou ao cargo.

No Amazonas, a autorização para uma aplicação de R$ 50 milhões foi assinada por um presidente que havia assumido o posto 28 dias antes. Ele era ex-contador da campanha de reeleição do governador Wilson Lima (União Brasil).

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