Da Redação
Em uma sociedade cada vez mais conectada, estar em contato com centenas de pessoas pelas redes sociais não significa necessariamente ter com quem contar em momentos de dificuldade. O paradoxo da hiperconexão, em que a tecnologia amplia as possibilidades de contato sem garantir sensação de pertencimento, também coloca em debate a qualidade dos vínculos e das redes de apoio.
A discussão ganha destaque durante o Setembro Amarelo, campanha dedicada à conscientização sobre a prevenção do suicídio. Para Jussara Aguiar, psicóloga e coordenadora do curso de Psicologia da UniFG Bahia, relações capazes de oferecer apoio dependem de elementos que vão além da quantidade de contatos.
“A tecnologia facilita o contato, mas vínculo é outra coisa. Para que uma relação se transforme em uma fonte de apoio, são necessários elementos como confiança, reciprocidade, disponibilidade e acolhimento”, explica.
O ambiente digital também pode acrescentar novas camadas ao sentimento de solidão. A comparação constante com vidas aparentemente perfeitas, a busca por aprovação, o medo da rejeição e a dificuldade de demonstrar fragilidades podem fazer com que muitas relações permaneçam apenas na superfície.
O problema, segundo a abordagem apresentada pela especialista, não está simplesmente no uso das redes sociais, mas em situações nas quais o excesso de interações acaba escondendo a falta de espaços para falar sobre sentimentos e dificuldades.
Sinais de sofrimento emocional
Estar sozinho não significa necessariamente estar em sofrimento. Momentos de solitude, quando a própria pessoa escolhe se afastar temporariamente dos outros, podem ser saudáveis e necessários.
O alerta aparece quando o isolamento é involuntário, persistente e começa a interferir na rotina. Entre os sinais que podem acompanhar o sofrimento estão tristeza, ansiedade, desesperança, baixa autoestima, alterações no sono, perda de interesse por atividades antes prazerosas e sensação de não pertencimento.
O afastamento também pode diminuir recursos importantes para enfrentar períodos difíceis, como conversar com alguém de confiança, participar de atividades coletivas ou simplesmente saber que existe uma pessoa disponível para ouvir.
Mudanças repentinas de comportamento também merecem atenção. “Quando uma pessoa que costumava participar de atividades passa a se afastar, perde o interesse pelas coisas, demonstra desesperança ou faz manifestações relacionadas à morte, é importante não ignorar esses sinais. Eles não permitem, isoladamente, concluir que existe risco de suicídio, mas indicam a necessidade de aproximação e escuta”, explica Aguiar.
Solidão também pode ter causas sociais
A solidão não deve ser tratada apenas como uma questão de responsabilidade individual. Fatores como desemprego, violência, discriminação, desigualdade social, excesso de trabalho, competitividade e perda de espaços comunitários podem reduzir as oportunidades de convivência e contribuir para o sofrimento.
“O cuidado não pode partir da ideia de que basta o indivíduo mudar seu comportamento. Existem situações sociais que produzem afastamento e vulnerabilidade. Reconhecer isso é importante para que não transformemos sofrimento em culpa”, ressalta Jussara Aguiar.
Por isso, discutir saúde mental também envolve observar o contexto social em que cada pessoa está inserida e as condições que favorecem ou dificultam a construção de vínculos.
Como fortalecer uma rede de apoio
Redes protetoras não são necessariamente aquelas que concentram o maior número de contatos, mas as que oferecem espaço para que a pessoa seja ouvida sem julgamento.
Perguntar de forma genuína como alguém está, perceber mudanças de comportamento, respeitar o tempo do outro e demonstrar disponibilidade são atitudes que podem contribuir para a aproximação.
“Também ajudam os encontros presenciais, a participação em atividades culturais, esportivas ou comunitárias e a retomada de contatos que foram se perdendo ao longo do tempo. Em muitos casos, não é necessário apresentar uma solução imediata. Escutar e permanecer próximo já pode ser uma forma concreta de cuidado”, destaca a educadora.
A psicoterapia também pode contribuir para esse processo. O acompanhamento profissional oferece um espaço protegido para compreender sentimentos, trabalhar autoestima e autonomia, desenvolver formas mais saudáveis de comunicação e identificar situações de sofrimento que demandem atenção.
A terapia, no entanto, não substitui a rede de relações. O cuidado em saúde mental não deve ser colocado exclusivamente sobre a pessoa que está sofrendo. Família, amigos, comunidade, profissionais e serviços de saúde podem fazer parte dessa rede.
No Setembro Amarelo, a prevenção, segundo a especialista, precisa ir além do incentivo genérico para procurar ajuda. “É preciso criar condições para que falar sobre sofrimento seja possível antes que ele se torne insuportável”, frisa Jussara Aguiar.
Onde buscar ajuda
O CVV oferece apoio emocional gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Em situações de risco imediato ou quando houver manifestação de intenção suicida, a orientação é buscar atendimento de urgência, acionar o SAMU pelo 192 ou procurar uma UPA ou pronto-socorro.

