Da Redação
O senador Jaques Wagner (PT) vendeu um terreno de aproximadamente 51 mil metros quadrados, localizado às margens da Via Metropolitana, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), por R$ 15 milhões. A área foi adquirida em março de 2000, quando o parlamentar exercia o mandato de deputado federal, por R$ 28 mil -valor equivalente a cerca de R$ 130 mil, considerando a inflação do período. A reportagem é de João Pedro Pitombo, do jornal Folha de São Paulo.
Documentos obtidos pela reportagem apontam que, após 25 anos, o imóvel registrou valorização de 11.400%, já descontada a inflação. O terreno possui extensão equivalente a aproximadamente sete campos de futebol.
A área faz parte de um terreno maior que pertencia à Traneves Patrimonial. Entre os sócios da empresa está Alex Grangeon Trancoso Neves, também sócio e administrador da Lagoons Empreendimentos, responsável pelo residencial integrado ao futuro centro de treinamento do Esporte Clube Bahia.
Segundo a reportagem da Folha, Jaques Wagner foi procurado desde a segunda-feira (20), por meio de sua assessoria, mas não respondeu aos questionamentos até a publicação da matéria.
Venda foi suspensa por decisão do STF
A transferência do imóvel foi suspensa em 25 de junho, por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), durante a nona fase da Operação Compliance Zero.
A investigação apura supostas irregularidades envolvendo o Banco Master. A suspensão do negócio ocorreu após operação da Polícia Federal e foi revelada inicialmente pelo jornal O Estado de S. Paulo, sendo posteriormente confirmada pela Folha de S.Paulo.
Área integra novo polo de expansão urbana
O terreno está localizado entre a Via Metropolitana e o Rio Joanes, em uma região que, até o ano passado, possuía vegetação preservada e poucas construções. Nos últimos meses, máquinas iniciaram a remoção da cobertura vegetal para implantação de um empreendimento residencial.
O projeto foi anunciado em abril deste ano como o primeiro residencial de alto padrão integrado a um centro de treinamento de futebol no Brasil. A iniciativa reúne o City Football Group, a QPC Incorporadora e o Grupo Terere.
O empreendimento será construído em uma área valorizada após a inauguração da Via Metropolitana, em 2018. A rodovia possui 11,2 quilômetros de extensão e liga Salvador a Camaçari, contornando a área urbana de Lauro de Freitas.
Via Metropolitana começou a ser planejada no governo Wagner
Registros publicados no Diário Oficial do Estado mostram que os estudos para implantação da Via Metropolitana tiveram início, pelo menos, em 2011, durante a gestão de Jaques Wagner no Governo da Bahia.
A obra foi viabilizada por meio de um aditivo ao contrato da concessionária Bahia Norte, responsável pelo sistema BA-093 desde 2010. O termo foi assinado por Wagner em setembro de 2014, ampliando o prazo da concessão de 25 para 30 anos.
As obras começaram em janeiro de 2015, já na administração do então governador Rui Costa (PT), e foram concluídas em 2018, com investimento de R$ 220 milhões.
Em fevereiro deste ano, Jaques Wagner participou do lançamento das obras do novo centro de treinamento do Esporte Clube Bahia e destacou a importância da rodovia para o empreendimento.
“Quem diria que a Via Metropolitana, que eu comecei e Rui Costa terminou, hoje nos daria a possibilidade de construir o novo Centro de Treinamento do Bahia?”, publicou o senador nas redes sociais.
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Apartamento também teve venda suspensa
Segundo a reportage, além do terreno, o STF também suspendeu a venda de um apartamento pertencente ao senador no Corredor da Vitória, em Salvador, negociado por R$ 10 milhões com o prefeito de Conceição do Coité, Marcelo Araújo (União Brasil).
Somadas, as duas negociações representariam R$ 25 milhões em patrimônio negociado. Na eleição de 2018, Jaques Wagner declarou R$ 3,3 milhões em bens à Justiça Eleitoral.
Empresa afirma que negociação foi regular
Em nota, a Lagoons Empreendimentos informou que a compra do terreno ocorreu dentro da legalidade e destacou que a aquisição feita por Jaques Wagner remonta ao ano de 2000, muito antes da concepção do empreendimento imobiliário.
“Trata-se de uma negociação realizada décadas antes da concepção do empreendimento Lagoons e, portanto, sem qualquer relação com o projeto atualmente em desenvolvimento. São operações distintas, realizadas em contextos temporais diferentes e em estrita observância à legislação”, afirmou a empresa.
A incorporadora informou ainda que a Traneves Patrimonial e outros proprietários da região participaram do projeto na condição de permutantes, modalidade em que o terreno é utilizado como parte do pagamento em troca de futuras unidades imobiliárias.
Segundo a empresa, o contrato firmado com o senador previa R$ 2 milhões de pagamento antecipado e outros R$ 13 milhões por meio de permuta física no empreendimento.
A Lagoons acrescentou que o terreno foi adquirido formalmente em maio de 2025, representa cerca de 4% da área total do projeto e que todas as negociações passaram por avaliações independentes e diligências documentais.
Defesa de Jaques Wagner
Para a Folha de São Paulo, a defesa do senador informou que a negociação foi iniciada em 2024 e formalizada em 2025.
Em nota divulgada no último fim de semana, os advogados afirmaram:
“Jaques Wagner já forneceu todos os esclarecimentos necessários. Todos os méritos do procedimento estão sendo discutidos nos autos.”
Investigação da Polícia Federal
Nesta semana, Jaques Wagner foi intimado pela Polícia Federal para prestar depoimento em agosto no âmbito da investigação relacionada ao Banco Master.
O senador foi alvo de operação realizada em junho, na qual é investigada a suspeita de recebimento de pagamentos ligados ao banco por meio da empresa da nora do parlamentar e de um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões.
Segundo a Polícia Federal, a investigação também apura suspeitas de atuação parlamentar em benefício de Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Jaques Wagner nega qualquer irregularidade.
A operação levou o parlamentar a deixar a liderança do governo Lula no Senado.

