Da Redação
Os atos de vandalismo contra monumentos e equipamentos históricos de Salvador têm provocado prejuízos milionários e colocado em risco a preservação da memória cultural da capital baiana. Entre 2025 e 2026, a Prefeitura de Salvador, por meio da Fundação Gregório de Mattos (FGM), gastou cerca de R$ 945 mil em ações de restauro e recuperação de obras públicas, grande parte em decorrência de depredações e furtos.
Um dos casos mais emblemáticos envolve o monumento em homenagem ao poeta Vinícius de Moraes, localizado na praça em frente à residência onde ele viveu na década de 1970, em Itapuã. A escultura, criada pelo artista plástico baiano Juarez Paraíso e inaugurada em 2003, voltou a ser alvo de vandalismo pouco tempo após passar por restauração.
Durante uma vistoria recente, técnicos identificaram que o pulso e o antebraço da escultura haviam sido serrados em uma tentativa de furto. Partes da cadeira que compõem a obra também foram danificadas, o que exigirá um novo investimento para recuperação do monumento.


A obra retrata Vinícius de Moraes sentado em tamanho natural ao lado de uma cadeira vazia, permitindo que visitantes tirem fotografias ao lado do poeta. O local se tornou um dos pontos turísticos mais conhecidos de Itapuã.
Outro caso recorrente aconteceu com a estátua Gandhi Andante, instalada na Praça da Inglaterra, no bairro do Comércio. A escultura em homenagem ao líder pacifista indiano Mahatma Gandhi teve os óculos furtados inicialmente. Antes mesmo do início do restauro, novos danos foram registrados, incluindo o furto de parte do cajado e da vestimenta da peça.
Segundo a FGM, os episódios obrigaram a realização de um aditivo contratual para ampliar os serviços de recuperação da obra.
Monumentos restaurados
Entre os monumentos restaurados em 2025 e no início deste ano estão a Sereia Yemanjá, no Rio Vermelho; o Caminho da Fé, na Cidade Baixa; o monumento a Dodô e Osmar, na Praça Castro Alves; o monumento ao Padre Manoel da Nóbrega, no Centro Histórico; a Sereia de Itapuã; o monumento a João Ubaldo Ribeiro, na Pituba; a estátua de Gregório de Mattos; o monumento a Nelson Mandela, na Liberdade; o Medalhão Dupla Face Mãe Caetana, na Estrada do Curralinho; e a homenagem à Mãe Stella de Oxóssi, em Stella Maris.
Ainda estão em processo de restauração o Gandhi Andante, os monumentos aos heróis da Conjuração Baiana e a Fonte da Praça Piedade, além dos monumentos ao 2 de Julho, no Campo Grande, e o acervo da Casa do Benin, no Centro Histórico.
De acordo com a Prefeitura, os custos de manutenção e restauro variaram entre R$ 3 mil e R$ 200 mil por peça no último ano.
O monitoramento é realizado pela Gerência de Patrimônio Cultural da FGM, responsável por vistorias técnicas periódicas e ações de fiscalização nos monumentos espalhados pela cidade. A fundação também conta com apoio da Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Desal) e da Secretaria Municipal de Manutenção (Seman).
A definição das prioridades de restauração leva em consideração o valor simbólico da obra, a urgência da intervenção e a disponibilidade orçamentária.
Grande parte das restaurações é conduzida pelo pesquisador e artista José Dirson Argolo, professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba), que atua há mais de 40 anos na recuperação de obras de arte. Algumas peças também são restauradas pelos próprios autores, como ocorreu com o Caminho da Fé, recuperado pelo ateliê de Juarez Paraíso.
Educação patrimonial
A gerente de Patrimônio Cultural da FGM, Roberta Santucci, afirmou que os novos projetos já estão sendo desenvolvidos com soluções técnicas para reduzir danos e ações criminosas.
“A instituição também desenvolve ações permanentes de educação patrimonial, por meio de iniciativas como ‘Patrimônio é…’, ‘Reconectar’ e ‘Jornada do Patrimônio Cultural’, entre outras, visando fortalecer o reconhecimento e o cuidado coletivo com os bens públicos e a memória da cidade”, declarou.
O professor e historiador Murilo Mello destacou que os monumentos possuem importância fundamental para a identidade cultural de Salvador.
“São peças importantes para todos, para a cidade como um todo, para a memória e identidade baiana. E cada peça, em si, representa um grupo ou parte da história da cidade. A estátua de Mãe Stella, por exemplo, incendiada em 2022, representa o povo de candomblé; então o vandalismo a essas obras é um ato de profanação ao todo, mas também a um grupo em específico”, afirmou.
Murilo também ressaltou que a tradição de monumentos urbanos foi inspirada em modelos franceses no final do século XIX.
“A depredação é um desrespeito com o coletivo e com o Estado e acaba gerando gastos que poderiam ser direcionados, até mesmo em ações sociais que poderiam retornar à própria pessoa que pratica esse ato. Mas falta essa consciência. São pessoas que vivem à margem da sociedade”, acrescentou.
O presidente do Conselho Municipal de Política Cultural, Romário Almeida, afirmou que Salvador possui relevância histórica para o Brasil e para o Atlântico Negro, tornando a preservação patrimonial um desafio permanente.
“A salvaguarda desses patrimônios pode e deve ser proporcional ao tamanho dos tesouros que a cidade tem”, disse.
Patrulhamento e denúncias
A Guarda Civil Municipal informou que intensificou as rondas preventivas para combater vandalismo e furtos de fios na capital baiana.
Segundo o inspetor-geral Marcelo Silva, a população pode colaborar por meio de denúncias via WhatsApp.
“A Guarda Civil Municipal intensificou as rondas preventivas para coibir o vandalismo, e agora, também disponibilizamos um número exclusivo para denúncias via WhatsApp: (71) 99623-4955. A população pode enviar relatos em texto, áudios de até 30 segundos ou fotos, ajudando a combater furtos e atos contra o patrimônio público e a proteger nossas riquezas culturais”, afirmou.
De acordo com o Código Penal, destruir, inutilizar ou deteriorar patrimônio público pode resultar em pena de detenção de até três anos, além de multa.
