sábado, 27 junho, 2026

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“Eles vão matar minha mãe”: juazeirense aguarda cirurgia cardíaca; família denuncia Hospital Ana Nery

Por Morgana Montalvão

Maria do Socorro Conceição Rodrigues, 60 anos, moradora de Juazeiro, ainda aguarda uma  cirurgia cardíaca no Hospital Ana Nery (HAN) que pode salvar sua vida. A paciente possui o diagnóstico de dupla lesão mitral grave de etiologia reumática, uma condição que exige a troca da válvula do coração. A doença provoca um histórico de descompensações clínicas que incluem parada cardíaca, disfunção renal e infecção urinária recorrente.

O caso foi noticiado pelo Bahia Municípios em abril deste ano, quando a família denunciou que Maria do Socorro havia sido negada seis vezes pela Central Estadual de Regulação e aguardava havia meses no Hospital Regional de Juazeiro (HRJ), com o quadro se agravando a cada semana.

A paciente foi internada no Hospital Ana Nery em 19 de abril,a equipe médica conseguiu estabilizar o quadro clínico e estava pronta para a cirurgia de troca de válvula cardíaca. Em menos de duas semanas, a função renal havia melhorado e  Maria do Socorro estava apta para realizar o procedimento cirúgico. O alívio durou pouco.

Mas a cirurgia não aconteceu. Em 29 de abril, a cardiologista responsável pelo caso, Dra. Natalia Santos Bomfim, assinou a alta hospitalar. A justificativa registrada no laudo foi a necessidade de tratar uma anemia. tida como leve e realizar um protocolo de descolonização bacteriana antes do procedimento cirúrgico. A condição, segundo o documento, era necessária para que a cirurgia ocorra em melhores condições de segurança.

Foto: Reprodução

O que o relatório não registra é nenhum prazo para o retorno. Verbalmente, segundo o filho da paciente, Vagner Rodrigues Filho,  a médica garantiu à família que o hospital ligaria em até 30 dias para agendar a volta.

“Ela prometeu que a gente retornaria com 30 dias”, relatou o filho em áudio enviado à reportagem. “Hoje já vai se chegando para dois meses e agora a conversa já é outra.”

Passados 30 dias sem contato, a família começou a ligar para o hospital. Não conseguia resposta. O filho então pegou dinheiro emprestado e viajou de Juazeiro a Salvador para cobrar uma posição pessoalmente. No hospital, a médica responsável pelo caso não o recebeu.

Um funcionário do setor de cirurgias orientou que a mãe viesse a Salvador para novos exames. O filho gravou um vídeo na recepção do bloco cirúrgico relatando o estado da mãe e foi levado a uma sala. Saiu com uma guia de exame de sangue e a promessa de que o hospital entraria em contato após o São João.

O exame foi feito no dia seguinte. O resultado apontou anemia leve – condição que, segundo o próprio laudo de alta, já estava identificada quando Maria do Socorro deixou o HAN em 29 de abril. O hospital passou a condicionar qualquer agendamento ao tratamento desse quadro, sem data definida para a cirurgia.

“Eles vão matar minha mãe”

O filho questiona a exigência. Para ele, pedir que a mãe esteja “clinicamente bem” para retornar é uma condição que o próprio quadro cardíaco impede de ser cumprida.

“O coração da gente é o motor do corpo, só faz funcionar as outras coisas. Com o coração da forma que está, ela sempre vai ter uma alteração. Alguma coisa vai estar desregulada, eles sabem disso”, afirmou Vagner.

Ele lembra ainda que a própria alta foi dada com pendências: “Quando ela saiu de lá, ela não estava 100% também não, ela tinha algumas compensações para fazer. Eu quero que eles assumam o erro deles e colocam ela de volta lá internada.”

Hoje a mãe anda pela casa, mas já começa a sentir desconforto ao respirar. O filho teme uma nova descompensação antes de qualquer agendamento: “Eles vão matar minha mãe pelo que eu tô vendo.”

Comparecer a Salvador para receber medicação ambulatorial, como o hospital propõe para tratar a anemia, também não é uma alternativa viável. Na última viagem, a paciente vomitou durante todo o trajeto de ônibus e o motorista precisou parar em Bonfim. “Ela não consegue nem estar viajando direto assim não, porque é arriscado ela não aguentar na estrada”, disse o filho. Ele afirma ainda ter em mãos um documento do hospital confirmando que o agendamento de 29 de junho é apenas para administração de medicação. “Ela vem para poder tomar esse medicamento, mas não é para internar não. Só isso eles disseram.”

A família também descarta o HRJ como opção. Maria do Socorro ficou três meses internada lá antes de conseguir a transferência para o Ana Nery. “Lá ela parecia aquele zumbi que só está deitado . Assim que chegou no Ana Nery, em menos de três dias, a mãe estava com uma outra pessoa. Mais ‘carnudinha’, começou a ganhar peso rápido, tava mais viva”, disse o filho. Ele teme que qualquer descompensação force um retorno ao regional. “Eu tenho fé em Deus que ela não voltará para aquele hospital mais nunca. Eu preciso mesmo é que o Ana Nery cumpra com o que prometeram.”

Devido a indignação, Vagner gravou um vídeo para as redes sociais cobrando um posicionamento da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia e do governador Jerônimo Rodrigues (PT), sobre a cirurgia cardíaca de Maria do Socorro.

 

 O que diz a Sesab

Procurado pela reportagem, a Sesab informou que Maria do Socorro “encontra-se em acompanhamento ambulatorial nesta unidade, seguindo protocolo indicado para o quadro dela, com o objetivo de otimizar suas condições clínicas e promover a correção do quadro hematológico previamente à realização da cirurgia cardíaca”. O hospital afirmou que havia “um procedimento agendado para o dia 29/06, além de uma consulta”, e que orientações teriam sido enviadas à família via WhatsApp institucional, sem retorno até então. A nota encerrou afirmando que “em nenhum momento a paciente deixou de ser assistida pelo serviço”.

Confira a nota completa

“O Hospital Ana Nery informa que a paciente Maria do Socorro Conceição Rodrigues encontra-se em acompanhamento ambulatorial nesta unidade, seguindo protocolo indicado para o quadro dela, com o objetivo de otimizar suas condições clínicas e promover a correçãodo quadro hematológico previamente à realização da cirurgia cardíaca. Ressaltamos o acompanhamento que está sendo feito constitui uma etapa importante na preparação clínica para o procedimento cirúrgico, contribuindo para maior segurança e melhores condiçõesno período perioperatório.

Comunicamos que há um procedimento agendado para a paciente no dia 29/06, além de uma consulta.

Informamos ainda que as orientações referentes ao acompanhamento da paciente foram previamente encaminhadas por meio do WhatsApp institucional, utilizando o contato disponibilizado desde o período do internamento. Contudo, até o presente momento, não obtivemosretorno.

Reforçamos que, em nenhum momento, a paciente deixou de ser assistida pelo serviço. A mesma permanece em acompanhamento contínuo pela equipe responsável, com a manutenção das condutas necessárias para sua adequada preparação cirúrgica.

Destacamos que a continuidade do tratamento proposto é fundamental para que a paciente seja submetida ao procedimento cirúrgico em melhores condições clínicas.

A diretoria da unidade permanece à disposição para quaisquer esclarecimentos para a paciente que se fizerem necessários.”

A família contesta. O filho diz que o agendamento de 29 de junho não se refere à cirurgia, mas à administração de medicação para anemia em regime ambulatorial. Sobre o WhatsApp, afirma que nunca recebeu nenhuma mensagem do hospital  e que foi justamente a falta de resposta que o obrigou a viajar a Salvador às próprias custas.

Diante das contestações, a reportagem enviou um novo pedido de posicionamento  à Sesab com perguntas específicas: qual a natureza do procedimento marcado para 29 de junho; por que o prazo verbal de 30 dias prometido pela médica responsável não foi cumprido; quais os critérios clínicos que definem “estar bem” para o retorno de uma paciente com doença cardíaca grave de base; e quais os registros do contato realizado via WhatsApp.

Foto: Divulgação

A resposta veio em poucas linhas: “A paciente pode ter todos os esclarecimentos sobre o atendimento com a equipe do Hospital Ana Nery. A unidade possui todo o histórico de atendimento e protocolos médicos que podem ser informados à paciente e familiares que ela autorizar.”

Confira

A paciente pode ter todos os esclarecimentos sobre o atendimento com a equipe do Hospital Ana Nery.

A unidade possui todo o histórico de atendimento e protocolos médicos que podem ser informados à paciente e familiares que ela autorizar.

Por questões éticas, não podemos detalhar quais procedimentos ela foi ou será submetida.”

 

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