quinta-feira, 30 julho, 2026

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Filho teme que a mãe morra por demora de cirurgia cardíaca no Hospital Ana Nery

Por Morgana Montalvão

Maria do Socorro Conceição Rodrigues, 60 anos, moradora de Juazeiro, ainda aguarda uma cirurgia cardíaca no Hospital Ana Nery que pode salvar sua vida. A paciente tem diagnóstico de dupla lesão mitral grave de etiologia reumática. A condição exige a troca da válvula do coração e tem histórico de descompensações clínicas que incluem parada cardíaca, disfunção renal e infecção urinária recorrente.

O caso foi noticiado pelo Bahia Municípios em abril deste ano, quando a família denunciou que Maria do Socorro havia sido negada seis vezes pela Central Estadual de Regulação e aguardava havia meses no Hospital Regional de Juazeiro (HRJ), com o quadro se agravando a cada semana.

Dois meses depois de ter sido internada e estabilizada no Ana Nery, a pergunta da família continua sem resposta: quando será a cirurgia? O Hospital Ana Nery afirma, por meio da Sesab, que a paciente segue em acompanhamento e que há um procedimento agendado para esta semana. A família contesta a natureza desse agendamento e afirma que um prazo prometido verbalmente não foi cumprido. A Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), questionada duas vezes com perguntas específicas, não as respondeu.

A paciente foi internada no Hospital Ana Nery em 19 de abril. Conforme o relatório médico de alta obtido pela reportagem, em menos de duas semanas a função renal havia melhorado, a equipe de infectologia liberou o procedimento cirúrgico e Maria do Socorro estava apta para a cirurgia.

A cirurgia não foi realizada.

Em 29 de abril, a cardiologista responsável pelo caso, Dra. Natalia Santos Bomfim, assinou a alta hospitalar. A justificativa registrada no laudo foi a necessidade de tratar uma anemia leve e concluir um protocolo de descolonização bacteriana antes do procedimento — condição, segundo o documento, para que a cirurgia ocorresse em melhores condições de segurança.

 

Foto: Reprodução

A promessa que, segundo a família, não foi cumprida

O relatório de alta não registra nenhum prazo para o retorno da paciente. Segundo o filho, Vagner Rodrigues Filho, a médica garantiu verbalmente à família que o hospital ligaria em até 30 dias para agendar a volta. A tia de Maria do Socorro, que a acompanhava no momento da alta, chegou a insistir por uma confirmação formal do prazo, mas, de acordo com Vagner, não obteve.

“Ela prometeu que a gente retornaria com 30 dias. Hoje já vai se chegando para dois meses e agora a conversa já é outra.”— Vagner Rodrigues Filho, filho da paciente

“Eles vão matar minha mãe”

Vagner questiona a exigência. Para ele, pedir que a mãe esteja “clinicamente bem” para retornar é uma condição que o próprio quadro cardíaco impede de ser cumprida.

“O coração da gente é o motor do corpo, só faz funcionar as outras coisas. Com o coração da forma que está, ela sempre vai ter uma alteração. Alguma coisa vai estar desregulada — eles sabem disso.”— Vagner Rodrigues Filho

Ele lembra ainda que a própria alta foi dada com pendências registradas no laudo: “Quando ela saiu de lá, ela não estava 100% também não, ela tinha algumas compensações para fazer. Eu quero que eles assumam o erro deles e colocam ela de volta lá internada.”

Segundo Vagner, a mãe hoje anda pela casa, mas já começa a sentir desconforto ao respirar. Ele teme uma nova descompensação antes de qualquer agendamento: “Eles vão matar minha mãe pelo que eu tô vendo.”

Comparecer a Salvador para receber medicação ambulatorial, alternativa que o hospital estaria propondo para tratar a anemia, também não seria viável, segundo o filho. Ele relata que, na última viagem, a paciente passou mal durante todo o trajeto de ônibus e o motorista precisou parar em Bonfim. “Ela não consegue nem estar viajando direto assim não, porque é arriscado ela não aguentar na estrada”, afirmou.

A família também descarta o HRJ como alternativa. Maria do Socorro ficou três meses internada lá antes de conseguir a transferência para o Ana Nery. Segundo Vagner, a experiência deixou marcas.

“Lá ela parecia aquele zumbi que só está deitado. Assim que chegou no Ana Nery, em menos de três dias, a mãe estava com uma outra pessoa. Mais carnudinha, começou a ganhar peso rápido, tava mais viva. Eu tenho fé em Deus que ela não voltará para aquele hospital mais nunca. Eu preciso mesmo é que o Ana Nery cumpra com o que prometeram.”— Vagner Rodrigues Filho

 

 O que diz a Sesab

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) informou que Maria do Socorro “encontra-se em acompanhamento ambulatorial nesta unidade, seguindo protocolo indicado para o quadro dela, com o objetivo de otimizar suas condições clínicas e promover a correção do quadro hematológico previamente à realização da cirurgia cardíaca”. O hospital afirmou que havia “um procedimento agendado para o dia 29/06, além de uma consulta”, e que orientações teriam sido enviadas à família via WhatsApp institucional, sem retorno até então. A nota encerrou afirmando que “em nenhum momento a paciente deixou de ser assistida pelo serviço”.

Confira a nota completa

“O Hospital Ana Nery informa que a paciente Maria do Socorro Conceição Rodrigues encontra-se em acompanhamento ambulatorial nesta unidade, seguindo protocolo indicado para o quadro dela, com o objetivo de otimizar suas condições clínicas e promover a correçãodo quadro hematológico previamente à realização da cirurgia cardíaca. Ressaltamos o acompanhamento que está sendo feito constitui uma etapa importante na preparação clínica para o procedimento cirúrgico, contribuindo para maior segurança e melhores condiçõesno período perioperatório.

Comunicamos que há um procedimento agendado para a paciente no dia 29/06, além de uma consulta.

Informamos ainda que as orientações referentes ao acompanhamento da paciente foram previamente encaminhadas por meio do WhatsApp institucional, utilizando o contato disponibilizado desde o período do internamento. Contudo, até o presente momento, não obtivemosretorno.

Reforçamos que, em nenhum momento, a paciente deixou de ser assistida pelo serviço. A mesma permanece em acompanhamento contínuo pela equipe responsável, com a manutenção das condutas necessárias para sua adequada preparação cirúrgica.

Destacamos que a continuidade do tratamento proposto é fundamental para que a paciente seja submetida ao procedimento cirúrgico em melhores condições clínicas.

A diretoria da unidade permanece à disposição para quaisquer esclarecimentos para a paciente que se fizerem necessários.”

A mensagem enviada pelo hospital – e o que ela diz

Vagner contesta a afirmação de que a família não teria respondido ao WhatsApp. Segundo ele, foi exatamente a falta de retorno do hospital que o obrigou a viajar a Salvador às próprias custas. Quanto à natureza do agendamento de 29 de junho, uma mensagem enviada pelo próprio WhatsApp institucional do HAN – o mesmo canal mencionado pela Sesab em sua nota – esclarece o que foi marcado.

No texto, enviado pelo grupo “Cirurgia Cardíaca Adulto” do hospital e obtido pela reportagem, o Ana Nery informa que a data marca uma consulta com o Dr. Caio Cafezeiro no ambulatório, a partir das 13h, por ordem de chegada. A mensagem é explícita: “RESSALTO QUE ESTA É UMA CONSULTA ELETIVA.” E encerra: “SERÁ CONSULTA MÉDICA, SEM PREVISÃO DE INTERNAMENTO.”

 

Foto: Divulgação

A mesma mensagem orienta ainda a paciente a pegar senha no guichê para receber medicação na recepção – o que, na leitura da família, confirma que a ida a Salvador serviria apenas para a administração do remédio da anemia, não para internação.

Diante das contestações, a reportagem enviou novo pedido de posicionamento à Sesab com perguntas específicas: qual a natureza exata do procedimento marcado para 29 de junho; por que o prazo verbal de 30 dias, alegado pela família como prometido pela médica responsável, não teria sido cumprido; quais os critérios clínicos que definem “estar bem” para o retorno de uma paciente com doença cardíaca grave de base; e quais são os registros do contato realizado via WhatsApp.

A resposta veio em poucas linhas: “A paciente pode ter todos os esclarecimentos sobre o atendimento com a equipe do Hospital Ana Nery. A unidade possui todo o histórico de atendimento e protocolos médicos que podem ser informados à paciente e familiares que ela autorizar.”

Confira

A paciente pode ter todos os esclarecimentos sobre o atendimento com a equipe do Hospital Ana Nery.

A unidade possui todo o histórico de atendimento e protocolos médicos que podem ser informados à paciente e familiares que ela autorizar.

Por questões éticas, não podemos detalhar quais procedimentos ela foi ou será submetida.”

 

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