Por Morgana Montalvão
Maria do Socorro Conceição Rodrigues, 60 anos, moradora de Juazeiro, ainda aguarda uma cirurgia cardíaca no Hospital Ana Nery (HAN) que pode salvar sua vida. A paciente possui o diagnóstico de dupla lesão mitral grave de etiologia reumática, uma condição que exige a troca da válvula do coração. A doença provoca um histórico de descompensações clínicas que incluem parada cardíaca, disfunção renal e infecção urinária recorrente.
O caso foi noticiado pelo Bahia Municípios em abril deste ano, quando a família denunciou que Maria do Socorro havia sido negada seis vezes pela Central Estadual de Regulação e aguardava havia meses no Hospital Regional de Juazeiro (HRJ), com o quadro se agravando a cada semana.
A paciente foi internada no Hospital Ana Nery em 19 de abril,a equipe médica conseguiu estabilizar o quadro clínico e estava pronta para a cirurgia de troca de válvula cardíaca. Em menos de duas semanas, a função renal havia melhorado e Maria do Socorro estava apta para realizar o procedimento cirúgico. O alívio durou pouco.
Mas a cirurgia não aconteceu. Em 29 de abril, a cardiologista responsável pelo caso, Dra. Natalia Santos Bomfim, assinou a alta hospitalar. A justificativa registrada no laudo foi a necessidade de tratar uma anemia. tida como leve e realizar um protocolo de descolonização bacteriana antes do procedimento cirúrgico. A condição, segundo o documento, era necessária para que a cirurgia ocorra em melhores condições de segurança.

O que o relatório não registra é nenhum prazo para o retorno. Verbalmente, segundo o filho da paciente, Vagner Rodrigues Filho, a médica garantiu à família que o hospital ligaria em até 30 dias para agendar a volta.
“Ela prometeu que a gente retornaria com 30 dias”, relatou o filho em áudio enviado à reportagem. “Hoje já vai se chegando para dois meses e agora a conversa já é outra.”
Passados 30 dias sem contato, a família começou a ligar para o hospital. Não conseguia resposta. O filho então pegou dinheiro emprestado e viajou de Juazeiro a Salvador para cobrar uma posição pessoalmente. No hospital, a médica responsável pelo caso não o recebeu.
Um funcionário do setor de cirurgias orientou que a mãe viesse a Salvador para novos exames. O filho gravou um vídeo na recepção do bloco cirúrgico relatando o estado da mãe e foi levado a uma sala. Saiu com uma guia de exame de sangue e a promessa de que o hospital entraria em contato após o São João.
O exame foi feito no dia seguinte. O resultado apontou anemia leve – condição que, segundo o próprio laudo de alta, já estava identificada quando Maria do Socorro deixou o HAN em 29 de abril. O hospital passou a condicionar qualquer agendamento ao tratamento desse quadro, sem data definida para a cirurgia.
“Eles vão matar minha mãe”
O filho questiona a exigência. Para ele, pedir que a mãe esteja “clinicamente bem” para retornar é uma condição que o próprio quadro cardíaco impede de ser cumprida.
“O coração da gente é o motor do corpo, só faz funcionar as outras coisas. Com o coração da forma que está, ela sempre vai ter uma alteração. Alguma coisa vai estar desregulada, eles sabem disso”, afirmou Vagner.
Ele lembra ainda que a própria alta foi dada com pendências: “Quando ela saiu de lá, ela não estava 100% também não, ela tinha algumas compensações para fazer. Eu quero que eles assumam o erro deles e colocam ela de volta lá internada.”
Hoje a mãe anda pela casa, mas já começa a sentir desconforto ao respirar. O filho teme uma nova descompensação antes de qualquer agendamento: “Eles vão matar minha mãe pelo que eu tô vendo.”
Comparecer a Salvador para receber medicação ambulatorial, como o hospital propõe para tratar a anemia, também não é uma alternativa viável. Na última viagem, a paciente vomitou durante todo o trajeto de ônibus e o motorista precisou parar em Bonfim. “Ela não consegue nem estar viajando direto assim não, porque é arriscado ela não aguentar na estrada”, disse o filho. Ele afirma ainda ter em mãos um documento do hospital confirmando que o agendamento de 29 de junho é apenas para administração de medicação. “Ela vem para poder tomar esse medicamento, mas não é para internar não. Só isso eles disseram.”
A família também descarta o HRJ como opção. Maria do Socorro ficou três meses internada lá antes de conseguir a transferência para o Ana Nery. “Lá ela parecia aquele zumbi que só está deitado . Assim que chegou no Ana Nery, em menos de três dias, a mãe estava com uma outra pessoa. Mais ‘carnudinha’, começou a ganhar peso rápido, tava mais viva”, disse o filho. Ele teme que qualquer descompensação force um retorno ao regional. “Eu tenho fé em Deus que ela não voltará para aquele hospital mais nunca. Eu preciso mesmo é que o Ana Nery cumpra com o que prometeram.”
Devido a indignação, Vagner gravou um vídeo para as redes sociais cobrando um posicionamento da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia e do governador Jerônimo Rodrigues (PT), sobre a cirurgia cardíaca de Maria do Socorro.
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O que diz a Sesab
Procurado pela reportagem, a Sesab informou que Maria do Socorro “encontra-se em acompanhamento ambulatorial nesta unidade, seguindo protocolo indicado para o quadro dela, com o objetivo de otimizar suas condições clínicas e promover a correção do quadro hematológico previamente à realização da cirurgia cardíaca”. O hospital afirmou que havia “um procedimento agendado para o dia 29/06, além de uma consulta”, e que orientações teriam sido enviadas à família via WhatsApp institucional, sem retorno até então. A nota encerrou afirmando que “em nenhum momento a paciente deixou de ser assistida pelo serviço”.
Confira a nota completa
“O Hospital Ana Nery informa que a paciente Maria do Socorro Conceição Rodrigues encontra-se em acompanhamento ambulatorial nesta unidade, seguindo protocolo indicado para o quadro dela, com o objetivo de otimizar suas condições clínicas e promover a correçãodo quadro hematológico previamente à realização da cirurgia cardíaca. Ressaltamos o acompanhamento que está sendo feito constitui uma etapa importante na preparação clínica para o procedimento cirúrgico, contribuindo para maior segurança e melhores condiçõesno período perioperatório.
Comunicamos que há um procedimento agendado para a paciente no dia 29/06, além de uma consulta.
Informamos ainda que as orientações referentes ao acompanhamento da paciente foram previamente encaminhadas por meio do WhatsApp institucional, utilizando o contato disponibilizado desde o período do internamento. Contudo, até o presente momento, não obtivemosretorno.
Reforçamos que, em nenhum momento, a paciente deixou de ser assistida pelo serviço. A mesma permanece em acompanhamento contínuo pela equipe responsável, com a manutenção das condutas necessárias para sua adequada preparação cirúrgica.
Destacamos que a continuidade do tratamento proposto é fundamental para que a paciente seja submetida ao procedimento cirúrgico em melhores condições clínicas.
A diretoria da unidade permanece à disposição para quaisquer esclarecimentos para a paciente que se fizerem necessários.”
A família contesta. O filho diz que o agendamento de 29 de junho não se refere à cirurgia, mas à administração de medicação para anemia em regime ambulatorial. Sobre o WhatsApp, afirma que nunca recebeu nenhuma mensagem do hospital e que foi justamente a falta de resposta que o obrigou a viajar a Salvador às próprias custas.
Diante das contestações, a reportagem enviou um novo pedido de posicionamento à Sesab com perguntas específicas: qual a natureza do procedimento marcado para 29 de junho; por que o prazo verbal de 30 dias prometido pela médica responsável não foi cumprido; quais os critérios clínicos que definem “estar bem” para o retorno de uma paciente com doença cardíaca grave de base; e quais os registros do contato realizado via WhatsApp.

A resposta veio em poucas linhas: “A paciente pode ter todos os esclarecimentos sobre o atendimento com a equipe do Hospital Ana Nery. A unidade possui todo o histórico de atendimento e protocolos médicos que podem ser informados à paciente e familiares que ela autorizar.”
Confira
“A paciente pode ter todos os esclarecimentos sobre o atendimento com a equipe do Hospital Ana Nery.
A unidade possui todo o histórico de atendimento e protocolos médicos que podem ser informados à paciente e familiares que ela autorizar.
Por questões éticas, não podemos detalhar quais procedimentos ela foi ou será submetida.”

